São Paulo, 10 (AE) - Ao apresentar ontem(9) os músicos da segunda eliminatória do 10.º Prêmio Eldorado de Música, o mais importante do Brasil na área erudita, o presidente do júri, o crítico J.J. de Moraes, lembrou ao público que essa poderia ser a derradeira prova. Mas, se o mundo não acabar amanhã, como querem os profetas do apocalipse, sorte de quem tem bons ouvidos para a boa música. A terceira eliminatória está a caminho. Será realizada no dia 23 e, se o nível dos concorrentes continuar assim, o Brasil finalmente vai confirmar a profecia de Stefan Zweig: será mesmo o país do futuro.
A segunda eliminatória começou com uma performance ousada do gaúcho Rafael von Gehlen, de 25 anos. Aluno da prestigiada Academia de Música de Viena, Von Gehlen escolheu um programa nada convencional. A primeira peça, Móbile Para Piano, Peça n.º 1, foi uma composição de seu professor Clodomiro Caspary, obra de difícil execução e resistente a classificações fáceis. Prosseguiu com a Sonata n.º 10 de Scriabin e dois movimentos da Sonata n.º 3 de Brahms, revelando domínio técnico e um desequilíbrio invejável nos pedais. Invejável porque todas as peças selecionadas são assimétricas e permitem ao intérprete leituras mais livres.
Mito e coragem - Scriabin (1872-1915) tem sido, por exemplo, uma pedra no sapato de grandes intérpretes, de Horowitz a Ashkenázy. O último a enfrentar o simbolismo do compositor russo foi o brasileiro Jean-Louis Steuerman. Von Gehlen afirma que não teria a coragem de fazer, por exemplo, o que Glenn Gould fez com Bach e outros compositores. "Comigo nenhum maestro agiria como Bernstein fez com Gould, alertando o público que iria reger uma obra com um solista do qual discordava da interpretação", afirma. O pianista brasileiro garante sua fidelidade a Scriabin, esquecendo seu lado teosófico e concentrando-se exclusivamente em sua linguagem musical.
O segundo candidato da noite, o violonista mineiro Aliéksey Vianna, de 24 anos, também enfrentou um revolucionário, o compositor alemão Hans Werner Henze, obtendo um melhor resultado em sua Drei Tentos do que com Bach, sua primeira peça. Vianna, um violonista com livre trânsito entre o jazz e a música erudita, tropeçou na Fuga de Bach, mas recuperou o fôlego em Henze e mostrou sua habilidade numa bela composição do brasileiro Sérgio Assad, Aquarela, espécie de síntese entre a tradição barroca e gêneros populares como o chorinho.
O último candidato da segunda eliminatória foi o flautista paulistano Enzo Giacomini, de 25 anos, que há três anos estudou na Hungria com uma bolsa da Fundação Vitae. Lá foi aluno de Henrik Pr”hle e István Matuz, transferindo-se em 1997 para a Escola Superior de Música de Berlim, onde tem aulas de interpretação com Roswitha Staege. Giacomini teve mais sorte do que Aliéksey Vianna com Bach. Sua interpretação da Sonata em Dó maior para Flauta e Contínuo BWV 1033 permite prever um futuro brilhante para Giacomini, que já atuou como solista na Sinfônica de Campinas.
Modernidade - Depois de Bach, Giacomini fez justiça a um compositor brasileiro morto há dez anos e raramente lembrado pelos músicos de concerto, Cláudio Santoro, interpretando sua Fantasia Sul América. Outra escolha que revela sua vocação para entender o projeto moderno foi a do compositor suíço Frank Martin (1890-1940), de quem tocou sua Ballade acompanhado pelo pianista Mário Balzi. Martin é um autor que exige dos intérpretes capacidade singular de entender sua contradição fundamental. Filho de um pastor protestante, Martin compôs obras profanas, oscilando entre o racionalismo germânico e a expressão latina. O flautista Giacomini conseguiu entender essa híbrida fusão.
Transe místico - Na terceira eliminatória do Prêmio Eldorado, que vem sendo realizado há 15 anos, dois clarinetistas
Ovanir Buosi e Alexandre Travassos, disputam com o conjunto vocal AmericAntiga. De novo, nessa apresentação do dia 23, os contemporâneos serão contemplados. O transe místico do polonês Krzystof Penderecki, que assustou todo mundo na trilha de O Exorcista, volta a ser lembrado pelo carioca Travassos e a música religiosa do brasileiro Henrique Oswald ganha nova interpretação do grupo curitibano AmericAntiga - Coro e Orquestra de Câmara. Os convites para essa próxima apresentação podem ser retirados com antecedência na bilheteria do Teatro Cultura Artística (Rua Nestor Pestana, 196).

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