O crítico literário Antônio Cândido, que completa 80 anos na sexta-feira, acaba de ganhar um belo presente de aniversário: levou o cobiçado Prêmio Camões, um dos mais importantes da literatura de língua portuguesa. Com uma peculiaridade: ele não tem nenhum livro editado em Portugal.
Comparada à literatura, Cândido nem dá tanto relevo assim à crítica. ‘‘O crítico tem importância grande no momento em que funciona, mas se perguntarem ao público sobre um grande autor do século 19, poderão dar várias respostas, como Balzac’’, alertou. ‘‘Mas se fizerem a mesma questão sobre o grande crítico do século 19, certamente não vão obter resposta’’, disse.
O Prêmio Camões é concedido anualmente pelo governo português e é a primeira vez que contempla um ensaísta brasileiro, o que fez Cândido demonstrar ‘‘agradável perplexidade’’. Os brasileiros que já ganharam o prêmio são o poeta João Cabral de Melo Neto (90) e os romancistas Jorge Amado (94) e Rachel de Queiroz (93).
Em Portugal, pensava-se que o prêmio seria destinado, este ano, ao escritor José Cardoso Pires, que se encontra em estado de coma em um hospital de Lisboa. Quando recebeu a notícia, Cândido, autor do clássico ‘‘Formação da Literatura Brasileira’’, publicado em 1959, revelou: ‘‘É honroso e ao mesmo tempo interessante que tenham levado em conta a obra de um crítico literário’’, disse. ‘‘É interessante, porque geralmente esse prêmio distingue a escritores, poetas e romancistas, e eu sou um crítico literário’’, ponderou.
Nascido no Rio e criado em Minas, Antônio Cândido é um dos mais influentes críticos literários do País. Integrou o grupo de críticos da revista Clima (que incluía, entre outros, Décio de Almeida Prado e Paulo Emílio Salles Gomes). Também foi o fundador, na década de 60, do curso de teoria literária da USP. Entre outros livros, publicou ‘‘Os Parceiros do Rio Bonito’’, ‘‘Literatura e Sociedade’’, ‘‘Tese e Antítese’’ e ‘‘O Discurso e a Cidade’’.
Casado com Gilda de Mello e Souza, Antônio Cândido de Mello e Souza tem uma extensa obra crítica, que conta com 15 títulos. Sua reputação é tão boa que surpreende até a si próprio. Candido admite que não tem uma relação muito próxima com a literatura portuguesa nem com o ambiente cultural daquele país. Recentemente, uma resenha de um livro seu saiu publicada na revista Colóquio, mas é tudo de que se lembra.
Não tem livros publicados em Portugal, mas sua obra também tem influenciado estudiosos do País. Um dos membros portugueses do júri do Prêmio Camões, o crítico Fernando J.B. Martinho, lembrou que a distinção ‘‘tem também como função dar a conhecer nomes prestigiosos menos conhecidos do público em geral’’. Segundo ele, Cândido constitui há muitos anos uma referência para determinados setores da vida acadêmica portuguesa.
Segundo o diretor da Biblioteca Nacional de Portugal, Carlos Reis, Cândido tem ‘‘enorme prestígio e excelente imagem’’ e é unanimemente respeitado no Brasil. Ainda de acordo com o diretor, é a segunda vez que o Prêmio Camões vai para um crítico antes, fora premiado o ensaísta português Eduardo Lourenzo.
A obra de Cândido ergue-se sobre considerações francas e análises criteriosas. ‘‘Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca’’, escreveu ele no seu grande clássico, o livro ‘‘Formação da Literatura Brasileira’’. Ainda assim, o crítico exorta o leitor a amar a literatura brasileira, para que se revele a sua mensagem uma posição romântica e muito pouco pragmática, que não define toda a sua produção, apenas uma obra.
Ex-integrante da Frente de Resistência, grupo que lutou contra a ditadura do Estado Novo e composto por jovens liberais e de aptidões socialistas, ele reafirma continuamente suas posições políticas. Darci Ribeiro elogiava-o pela capacidade de manter-se sempre fiel a três coisas básicas: ao saber, à beleza e ao socialismo.
‘‘Todos nós que estudamos literatura temos de praticar algum tipo de saber, temos de ter um centro de beleza e, quanto a ser socialista, sou desde moço e continuo achando que ainda é perfeitamente válido, contanto que seja adaptado às modificações do tempo’’, disse.
Cândido também rechaça a afirmação de que haja um approach demasiado sociológico na sua obra. ‘‘Como eu fiz estudos de sociologia, e fui mesmo professor de Ciências Sociais, é claro que a sociologia como ponto de vista interfere no meu modo de ver a História e a Literatura’’, avaliou. ‘‘Mas eu procuro na minha crítica fazer uma crítica de vertentes, isto é, que acompanhe os problemas da obra’’. Ou seja: se a obra coloca problemas de ordem social, obviamente, ele procura dar um tratamento adequado a isso. ‘‘Do contrário, não.’’
Cândido confessa a influência de dois professores franceses no seu trabalho: Roger Bastide, no campo da sociologia, e Jean Maugué, no campo da filosofia. ‘‘Não conheci Lévi-Strauss, quando entrei para a universidade ele já tinha ido embora’’, lembrou.
Há muitos anos Antônio Cândido defende a universalidade de Machado de Assis e sua posição entre os maiores escritores. Há alguns anos, ele vê com satisfação a redescoberta gradativa da obra de Machado pelos estrangeiros, Susan Sontag chegou a dedicar-lhe grandes ensaios nos Estados Unidos. ‘‘Sempre achei que Machado é um dos maiores do século 19, como é também Eça de Queirós, ambos no âmbito dos maiores do mundo, e continuo pensando a mesma coisa.’’

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