Prelúdio para a liberdade
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segunda-feira, 06 de abril de 1998
Celso Mattos 
ReproduçãoGlenn Close e Frances McDormand estão no elenco desta produção dirigida pelo australiano Bruce BeresfordSão raros os filmes que se preocupam em contar histórias essencialmente femininas. Na opinião dos executivos dos grandes estúdios, produções que trazem mulheres como protagonistas e homens como figurantes não rendem boas bilheterias. Mas graças à coragem de alguns cineastas que resolveram quebrar essa regra e apostar mais na emoção do que nos cifrões, o telespectador teve a oportunidade de assistir a belos filmes como O Clube da Felicidade e da Sorte e Colcha de Retalhos, que deixaram a sensibilidade feminina tomar conta do set de filmagem.
Para fazer parte dessa seleta filmografia chega às locadoras Um Canto de Esperança, dirigido pelo australiano Bruce Beresford. Não é a primeira vez que o cineasta investe em uma história feminina. Em 1989, seu filme Conduzindo Miss Daisy, ganhou o Oscar de Melhor Filme e de Melhor Atriz para Jessica Tandy. Um Canto de Esperança se concentra num episódio pouco conhecido da Segunda Guerra. Em 1942, dezenas de mulheres européias, australianas e americanas foram capturadas pelo exército japonês e mantidas por três anos num campo de concentração na Ilha de Sumatra.
O elenco reúne alguns nomes de peso como Glenn Close, Frances McDormand (Oscar de Melhor Atriz, em 1997 por Fargo) e Pauline Collins, de Shirley Valetine. Para suportarem a atmosfera sufocante e as inúmeras adversidades físicas e psicológicas, elas aproveitaram o fato de algumas prisioneiras possuírem experiência musical e montaram um coro clássico. A música funcionou como uma válvula de escape para todos os tipos de humilhação e desconforto que elas sofreram na Ilha de Sumatra. A direção de Bruce Beresford evita o sentimentalismo fácil e não ameniza a crueldade imposta pelos japoneses às prisioneiras.
O fato dessas mulheres terem vindo de países e classes sociais diferentes resulta também num choque de culturas. Mas que acaba sendo superado pela música que aos poucos vai contagiando as prisioneiras e os guardas do exército japonês. As notas da Sinfonia do Novo Mundo, composta por Anton Dvorák flutuam pelos pavilhões do campo de concentração, provocando arrepios no telespectador. Um Canto de Esperança é uma história sobre coragem, amizade, triunfo e dignidade.
Quando cantava, esquecia que estava num campo. Sentia-me livre, disse uma das prisioneiras anos depois de ser libertada. Metade delas morreu antes do final da guerra. Mas as que sobreviveram continuaram cantando no coro por muitos anos. A última apresentação foi na Universidade de Stanford, na Califórnia, em 1983, onde estavam apenas nove das cantoras originais. Mas nas primeiras fileiras da platéia estavam várias ex-prisioneiras da Ilha de Sumatra que vieram de vários países para assistir ao concerto. De cabelos grisalhos e rugas no rosto aquelas mulheres reviveram através da música um triste episódio de uma história recente.
É um filme feminino, mas que deve ser assistido também pelo público masculino, pois mostra que dar vazão à sensibilidade não é sinal de fraqueza, mas de coragem. Aquelas mulheres foram bruscamente retiradas de suas famílias e perderam seus direitos e sua liberdade, mas se mantiveram unidas na dignidade e na amizade. Duração: 114 minutos.


