Em entrevista à Folha2, Fernando Jorge justifica seu estilo passional e agressivo
Por que esta admiração toda pela Vera Loyola?
Vera Loyola é irrevente e inteligente. Mulher de origem humilde que foi hostilizada pela Carmem Mayrink Veiga quando começou a ascender na sociedade carioca. É por isso que a admiro tanto. Claro que por ser uma mulher inteligente, não está imune a gafes, como esta festa que fez há pouco tempo para sua cadelinha. Mas nisso ela não é em nada diferente de ídolos do futebol, como o Ronaldinho, que comprou aquela Ferrari por uma quantia absurda e ninguém disse nada.
Lendo seu livro, a impressão que se tem é que nenhum acadêmico tem valor.
É inegável que a ABL tem escritores de talento. Que não são a maioria. Gente como Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro e Rachel de Queiroz. Só não entendo como é que um cara como João Ubaldo, um fanfarrão, um gozador, um boêmio, é capaz de estar no meio daqueles velhos reumáticos e catarrentos.
O senhor tem um estilo, digamos, peculiar. Sobram expressões de sarcasmo, algumas ofensas pessoais, o senhor usa palavrões...
Não quis fazer um livro perfeito. Sou contra esta coisa academicista que prega a perfeição. Quis fazer um livro informal, que revelasse a minha personalidade. Eu sou assim mesmo na vida real: passional, agressivo. Se grandes vultos denunciaram de modo pessoal coisas que consideravam injustas, como o Zola, que se expôs ao perigo naquela história do ‘‘J’Acuse’’, por que eu não posso?
Mas em que contribuem ofensas meramente pessoais, como chamar a Nélida Piñon de balofa e os acadêmicos todos de reumáticos e catarrentos?
Eu detesto a mentira! Prefiro a verdade chocante. É claro que posso ter cometido alguns excessos no livro, e talvez alguma injustiça. Mas para escrever me baseei em declarações dos próprios acadêmicos sobre a ABL. É uma coisa diabólica, eu sei. Mas serve para mostrar que a Academia não é respeitada nem pelos próprios acadêmicos.
Quando as pessoas argumentam contra a ABL, geralmente usam o nome de duas pessoas, Roberto Marinho e Ivo Pitangui, como exemplo de pessoas de pouco valor que usam o fardão. Curiosamente estes dois personagens são um dos únicos que o senhor defende.
Roberto Marinho é um dos únicos grandes homens presentes naquela casa. Ele teve a coragem, durante a ditadura, de acolher grandes jornalistas perseguidos pelos militares, que não encontravam emprego nos outros jornais. Só por isso ele se mostra muito maior do que todos os acadêmicos juntos, que não disseram uma só palavra de protesto durante o regime militar.
E Ivo Pitangui...
Ivo Pitangui é um trabalhador, ao contrário da Academia, que é uma instituição inútil. Inteligentíssimo, tem mais de 900 trabalhos científicos de valor publicados. É melhor do que a grande maioria dos homens que lá estão.
O senhor, durante o livro inteiro, faz menção ao vultoso patrimônio da ABL, inflado nas sucessivas gestões do Austregésilo de Athayde. O que isso tem a ver com a suposta inutilidade da Academia?
A Academia é a instituição do gênero mais rica do mundo. O patrimônio da ABL chega a bilhões e vai aumentar ainda mais quando o prédio do Petit Trianon ficar definitivamente em suas mãos. Mesmo sendo riquíssima, a ABL não é capaz de lançar um dicionário de lavra própria. Os prêmios que ela distribui são irrisórios. E ainda são oferecidos por instituições financeiras. Um absurdo.
Com tantas críticas pessoais, o senhor não tem medo de retaliações, de processos?
Se quiserem me processar, vão perder. Estou fortemente armado. Tenho documentos de sobra para reafirmar cada linha que escrevi. Não tenho medo de processos.

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