Patrícia Villalba
Agência Estado
Um dos grandes nomes da dramaturgia brasileira, Milton Gonçalves, 50 anos de carreira, diz que seu maior sonho é que parem de chamá-lo de ‘‘grande ator negro’’. E fazia tempo que a rubrica ‘‘negro’’ não surtia tanto efeito num trabalho seu como agora, quando ele vive o político corrupto Romildo Rosa, na novela ‘A Favorita’, da Rede Globo. Sujeito odioso e grande conhecedor dos corredores da República, o deputado é mestre em manejar recursos públicos em proveito próprio. Por causa desse personagem, Gonçalves tem levado estocadas pesadas. Alguns questionam – e ao questionar já acusam o ator – se não seria desserviço à causa dos afrodescendentes, para usar um termo politicamente correto, apresentar na TV um negro corrupto. Cidadão militante, e não só da causa da igualdade racial, o ator se diz surpreendido pelo viés pelo qual o personagem vem sendo interpretado. E rebate: ‘‘O estranhamento não vem do fato de Romildo ser negro e corrupto, mas do fato de ser negro e poderoso.’’
  Logo de cara, Romildo Rosa foi definido como ‘‘um político negro e corrupto’’. Até que ponto você acha que esse ‘‘negro’’ é importante?  Deixa eu contar uma coisa. A história que me foi plantada na cabeça quando eu era menino é que nós viemos de um continente selvagem. Mas, de repente, comecei a descobrir que nós, negros, participamos da formação deste mundo. Descobri que não sou um negro brasileiro, mas um brasileiro negro. Descobri que não sou africano, sou brasileiro. Então, não posso me segregar num país do qual o meu tataravô participou da construção. Não quero brigar para me segregar. Quero lutar pelo refazer a história do meu país. E refazer a história do meu país através das artes é procurar fazer todos os papéis. Romildo Rosa incomoda a sociedade branca, negra e política, não porque seja corrupto, mas porque ele é poderoso. E o que incomoda o cidadão Milton Gonçalves é a não-aceitação desse corrupto negro, que é igual ou pior do que qualquer corrupto branco, amarelo ou vermelho. Quero ter o direito de fazer um personagem negro, corrupto, mau-caráter, safado. Não sei se ele vai se redimir, e nem me interessa. O que eu quero mostrar através do meu personagem é a infinita capacidade corrosiva do mau-caratismo e da corrupção, que pode estar em qualquer setor da sociedade.
  O incômodo que Romildo causa é um preconceito ao contrário ou um politicamente correto ao extremo?
  Com relação aos negros, é um preconceito introjetado. Nós, negros, muitas vezes não percebemos que praticamos o preconceito que tanto criticamos. Um senhor deputado de São Paulo (José Cândido, do PT) disse que estou prestando um desserviço. E, ao mesmo tempo, declara que é o único deputado negro da Assembléia de São Paulo. É uma lástima. Seiscentos e tantos municípios no Estado e só um deputado negro. É uma questão de analisar melhor em vez de ficar tendo faniquito. O inacreditável é que a coisa ainda seja dividida assim, ‘‘candidato negro’’, ‘‘grande ator negro’’. É uma restrição odiosa e desrespeitosa. A coisa que eu mais sonho na vida: quando da descrição de algum personagem, seja eliminada a rubrica ‘‘ator negro’’ ou ‘‘atriz negra’’.
  Até que ponto você acha que o biotipo deve ser limitador para um ator?  Depende do país. Na sua origem, a Ofélia era branca, porque ali não havia ainda mulheres negras. Mas no crescer da árvore, as coisas mudam. Obviamente, você procura atores para determinados personagens a partir do ‘physique du rôle’. Mas isso não pode ser limitador, ainda mais no Brasil, onde temos tantas misturas. Está lembrada quando dois gêmeos em Brasília entraram na universidade e um foi admitido pelo sistema de cotas como negro e o outro não? Você pode admitir isso? Que aberração é escolher alguém pela sua etnia? Quantos almirantes negros temos? Quantos brigadeiros? Quantos comandantes da Polícia Militar? A minha disponibilidade e defesa de personagens como Romildo Rosa é para que haja essa integração. Vamos brigar até o fim.
  Você está na Globo desde a fundação da emissora, há 43 anos, e sempre lutou por papéis que fossem além do estereótipo do negro. Nessa trajetória, você consegue ver o Romildo como um divisor de águas no que se refere à representação do negro na TV?  Não acho. Ele é mais um personagem. Eu cheguei à Globo como ator, não aprendi a interpretar lá. Não é o primeiro vilão que faço. Teve um momento em que só eu fazia bandidos no cinema, e ninguém nunca reclamou. Já fiz novelas em que fui casado com brancas e com negras. Sempre procurei a diversidade de papéis – alguns não dá mais para eu fazer, porque já estou velhote. Agora, se for chamado, vou fazer todo e qualquer personagem bom – e não quero saber se é mau-caráter – porque eu sou ator em primeiro lugar.
  É verdade que você foi sondado pelo PMDB para assumir a Secretaria de Igualdade Racial?  É. Aventou-se essa hipótese, mas eu não quis. O Edson Santos está lá agora. Mas por que ele não pode ser (ministro) da Fazenda? Da Saúde? Por que tem de ir para o departamento que vai cuidar de negros? Acho esse departamento muito estranho.

mockup