Quando alguém se despe da juventude e maturidade - ou de qualquer outra condição - consegue ver a nudez humana. Dois homens, nesses dois extremos da vida, em que - qualquer relação entre eles não é mais do que a solidão - tiram a roupa um diante do outro, no espetáculo ''À Beira do Precipício'', da Companhia Funcart de Teatro, que será apresentado hoje e amanhã na Escola Municipal de Teatro.
Apesar da grande diferença de idade, os dois personagens se descobrem na dramaturgia e direção de Silvio Ribeiro, que coloca no mesmo quarto mobiliado pela solidão, inquietações e desejos, um homem maduro e um jovem garoto de programa.
O texto estreou no 40º Festival Internacional de Londrina (Filo), mas ficou guardado na gaveta pelo dramaturgo por muito tempo até que o ator Donizete Buganza se interessou em montar um espetáculo mais intimista.
Na peça, ele é Afonso, um homem maduro, que desde que a esposa morreu, se fechou ao mundo, não recebendo ninguém em sua casa, apenas os que se dispõem às relações profissionais. Zeca, personagem do ator Bruno Leite, faz do sexo uma profissão. Numa noite chuvosa, Afonso leva o rapaz para o próprio apartamento.
Para muitas pessoas, ainda que uma tempestade se anuncie sobre a cabeça, é difícil imaginar que pode ser levado pela enxurrada. ''Nenhum dos personagens são homossexuais. O que existe é um encontro levado pela solidão. Tem um clima de sedução porque o Zeca carrega isso com ele, não conseguindo estar com outra pessoa sem que a seduza'', comenta Ribeiro.
Apesar de viver nas ruas, o personagem de Leite é solitário dentro dos seus serviços sexuais e no vício do crack, enxergando, na própria nudez humana, a necessidade de que alguém o ajude a enfrentar os riscos de uma tempestade.
Na peça, a chuva não pára lá fora, enquanto Zeca descobre a segurança em Afonso. ''A interpretação dos dois atores contribui para que a solidão dos personagens se torne inerente à vida deles. Eles estavam acostumados com isso, mas vêem a possiblidade de dividir as coisas mais íntimas e que não se resumem ao sexo'', ressalta Ribeiro.
Afonso acaba encontrando em Zeca a própria juventude adormecida na noite escura, chuvosa e fria em que pode se transformar a maturidade ou qualquer outra condição da vida.
O diretor lembra que, para viver o garoto de programa na peça, o jovem ator precisou abrir mão de muita coisa, mas a experiência de Buganza contribuiu para que o que fique mais explícito seja a nudez humana.

SERVIÇO
- À Beira do Precipício
Quando - Hoje e amanhã, às 20h
Onde - Escola Municipal de Teatro, R. Acre, 315, em Londrina
Quanto - R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)

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