Preciosidade remasterizada
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de setembro de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Sim, lá estão as indefectíveis O Pato, Desafinado e, claro, Chega de Saudade. Aí vem aquela tradicional constatação de uns e outros: de novo? De novo, sim. Mas não tão de novo assim porque em se tratando de João Gilberto tais canções nunca serão registradas fonograficamente iguais às versões anteriores. Nunca. É que a cada ano que passa enclausurado e longe dos estúdios, onde pisa os pés quando bem entende, o maior cantor do Brasil fica ao violão burilando essas e outras canções até entender que estão prontas a ser novamente apresentadas. Coisas de um cara genial e genioso que faz e refaz frases musicais, redimensiona compassos e, de quebra, dá sopro novo com sua voz miúda a preciosidades da MPB aparentemente esgotadas.
Pois muito bem, O Pato, Desafinado e Chega de Saudade foram incluídas no repertório do show que o cantor baiano cantou num especial da TV Globo, em 80, que acabou rendendo um disco ao vivo - João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Dezoito anos depois, a Warner faz o relançamento do disco em versão CD. Não se trata de nenhum disco antológico e, sim, precioso. É de João Gilberto, não!?
A versão para CD precisou contar com pequenas alterações. A começar pela embalagem. No formato vinil, a capa trazia algumas fotos de João Gilberto colhidas de um monitor de TV que se reduzidas para 12 x 12 centímetros (padrão de capa de CD), teriam um resultado desastroso. O jeito foi pegar fotos recentes de João, devidamente autorizadas por ele, e fazer um mimo gráfico qualquer.
Outra alteração é que pelo fato de um compact disc contemplar mais tempo, a gravadora incluiu quatro faixas a mais retiradas de outras gravações ao vivo - Aquarela do Brasil, Bahia com H, Tim Tim por Tim Tim e Estate. Bem que poderiam informar de onde tais fonogramas foram retirados.
João Gilberto Prado Pereira de Oliveira traz releituras curiosas como Menino do Rio (que João viria a registrar novamente em estúdio, em 90) e a participação que à época causou um certo bochicho: Rita Lee cantando Joux Joux et Balangandans (grafada incorretamente no disco). Diz a lenda que Rita, que no começo da década de 80 estava no auge da popularidade, estava em sua casa linda e ruiva quando o telefone tocou.
Do outro lado, uma voz sussurrava os versos iniciais de Chega Mais. Era João Gilberto que a estava convidando para participar de seu especial. Rita, claro, aceitou e, pelo que declarou à época, durante uma semana ficou sem cometer alguns excessos como fumar (cigarros) desvairadamente. Verdade ou não, o fato é que Rita imprimiu uma saborosa languidez à interpretação e ajudou Joux joux et Balangandans a ser um dos momentos mais agradáveis do disco.
Há uma outra participação especial cuja ordem partiu também de João Gilberto - a da filha Bebel, com 13 anos, uma criança. Ela canta bonitinho, afinadinha e faz uma versão feminina para Chega de Saudade (mas se ele voltar, se ele voltar, que coisa linda, que coisa boa). Mesmo audivelmente tensa, Bebel consegue dar conta do recado. Papai João, por sua vez, se permite fazer uma sutil percussão vocal, que soa como uma espécie de contratempo, para lembrar à filha que aquilo que está cantando é quase jazz e não cantigas de roda.
O especial foi dirigido por Daniel Filho. Coube a Guto Graça Mello assinar a direção e produção musical. A maioria das faixas foi gravada na base do banquinho e violão. A orquestra entra, e mesmo assim sem grandes pompas, em quatro momentos - Menino do Rio, Eu e a Brisa, Joux Joux et Balangandans e Canta Brasil.
Fosse em outros discos gravados ao vivo, o público seria uma atração à parte. Nesse de João Gilberto, sabe-se lá se por respeito ou medo de que o papa da bossa nova reagisse com um comportamento menos ortodoxo, os presentes se limitaram a aplaudir diplomaticamente, embora haja um assoviozinho aqui e um êêê ali. E só.
João Gilberto Prado Pereira de Oliveira abre com Menino do Rio em que João Gilberto reconstrói dignamente, como sempre, uma das canções mais frágeis e comerciais de Caetano Veloso. Na faixa seguinte, outra maravilha - Curare (Bororó). É de se ouvir e ouvir e ouvir. De quebra, observem como João Gilberto brinca competentemente com o compasso sem alterar a candura e delicadeza dessa pepita escrita por Bororó.
O que se percebe por todo o disco é que João Gilberto estava sereno, solto, leve ao ponto de o ouvinte não se ater muito às estripulias harmônicas e rítmicas que faz com o violão. Mas se é para prestar atenção à sua genialidade, basta ouvir Retrato em Branco e Preto (Tom Jobim-Chico Buarque), em que ele, só ele mesmo, busca tessituras harmônicas magníficas.
Bem, o importante é que mais um disco de João Gilberto não está mais fora de catálogo ou longe das mãos e do ouvido do público. E um disco desse iluminado é coisa para se guardar num sacrário após cada audição. Mais que gostar, é preciso entender a grandiosidade artística de João Gilberto. É preciso, mesmo que avessa a oferendas, reverenciar sempre que possível essa entidade musical. João Gilberto, senhores, mais que um estilista é um fazedor de arte. E dos bons. E ponto. Pena que analfabetos musicais ainda pensem - enquanto ruminam - que ele, João Gilberto, se repete!!


