Preciosidade musical
PRECIOSIDADE
MUSICAL
O cantor e compositor
Miran está lançando o
ótimo Misturando Rende
Mais, seu segundo disco
Antônio Mariano Júnior
Foi uma epopéia. Mas depois de muitas reviravoltas - com detalhes hilariantes até - o cantor e compositor pernambucano Miran, radicado em Londrina, conseguiu colocar nas prateleiras seu segundo disco - Misturando Rende Mais- o primeiro em formato CD. Isso depois de nove anos de emudecimento fonográfico. O novo trabalho, impresso pela gravadora TapeLaser, traz ao todo 12 faixas em que predominam os ritmos nordestinos, todas assinadas por Miran.
Misturando Rende Mais - que já se encontra nas lojas de Londrina - é um daqueles discos que se ouve numa sentada só e sem pular uma faixa sequer. Tudo é muito sincero. Não bastasse, a riqueza musical característica dos ritmos do Nordeste brasileiro se junta às letras consistentes, algumas com um grande toque de lirismo. São várias as que poderiam ser citadas.
Um bom exemplo é a deliciosa Terra no Pé ou mesmo a faixa-título (Quero ver o meu País/Com um só beabá/ Uai, oxente, tchê/Oxente, tchê, uai/ Misturando rende mais. Se há lirismo, há também picardia, como é o caso de Geralda Gaga, em que Miran destila bom humor através de letra e música fáceis sem que isso caia, por exemplo, nas baixezas típicas de Genival Lacerda. Há um quê de Jackson genial do Pandeiro, na verdade.
O disco traz também duas regravações - a bela Sem Mulher Não se Faz Revolução e Grito do Sem Terra, registradas originalmente no trabalho anterior Canto e Caminhada Até o Entendimento. Não bastasse a consistência musical, Misturando Rende Mais tem uma boa qualidade sonora. Em outras palavras, Miran conseguiu trazer à tona um disco que, de tão simples - porém com estofo - chega a ser precioso.
Isso não chega a ser nenhuma novidade em se tratando desse pernambucano arretado de Mirandiba, nascido Wilson Miran Lopes de Carvalho, há 46 anos. Só de Londrina são 15 anos de residência. São vários os predicados de Miran - cantor, compositor, letrista, poeta, agitador cultural e ativista político (foi presidente do diretório local do PSB).
Ou seja, a admirável trajetória artística sempre esteve lado a lado com a política. Acho que todo artista tem que ser politizado, senão ele se torna apenas um artista a serviço dos exploradores dos pequenos. O artista tem que colocar seus conhecimentos a serviço dos necessitados e também de toda a sociedade- diz ele.
Esse discurso pode ser verificado principalmente no disco anterior, que vendeu até agora duas mil cópias. O trabalho tinha um profundo conteúdo social, uma preocupação latente com os mais desamparados. O primeiro disco eu considero uma obra-prima porque estava no auge de minhas certezas e de minha ideologia raciocina.
Suas convicções ainda são defendidas com unhas e dentes. Mas o que se verifica em Misturando Rende Mais é um artista menos engajado. O disco anterior tinha muito conteúdo social. A diferença é que nesse, além de conteúdo social, há também ironia popular. Entendi que precisava fazer algo mais dançante- informa.
Enfim, o mais importante nessa história toda é o talento de Miran. Um sujeito valente que assim define seu ofício: Sou mascate da arte. Todos os meus trabalhos são projetos-sacolas. Então tá, Miran!





