Pré-estréia de Evita causa protestos
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 1997
Oscar Martínez France Presse 
ReproduçãoArgentinos consideram Madonna indigna para o papel de EvitaSomente as estritas medidas de segurança e alguns protestos de rua, sem incidentes, foram constatadas segunda-feira à noite, em Buenos Aires, na pré-estréia do polêmico musical Evita, que foi recebido com poucos aplausos e foi marcado pela ausência de público da classe política na sala.
Em meio a um clima criado pelo chamado boicote do filme, realizado pelo vice-presidente da Argentina, Carlos Ruckauf, chamado de ignorante pelo diretor britânico Alan Parker, houve um pico de tensão quando, meia hora antes da projeção, surgiu um grupo de cerca de 500 pessoas manifestando sua revolta através de cartazes e palavras de ordem contrárias à exibição.
O grupo, formado majoritariamente por mulheres, chamava atenção especialmente para a cantora norte-americana Madonna, que faz o papel de Evita no filme. Os manifestantes levavam cartazes com os dizeres Viva Evita, fora Alan Parquer ou Viva Evita, fora Madonna, assinados pelo Comando da Organização do Movimento Nacional Peronista.
Sua presença em frente ao cinema Gran Rex, da avenida central de Corrientes, tinha como finalidade deter a exibição do filme, embora isso não tenha sido tentado nem tenha sido necessária a intervenção da polícia.
Não estamos contra a arte, contra o cinema ou a liberdade de trabalho. Parece-nos perfeito que Madonna faça o que quiser. O que não estamos de acordo é com as qualidades de Madonna, que não servem para representar o símbolo de Eva Perón, afirmou um dos manifestantes.
O dirigente peronista ortodoxo Alberto Brito Lima liderou o protesto e destacou que sua presença representa 40 anos de história ao serviço do movimento peronista.
DistúrbiosO diretor Alan Parker chegou à sala de exibições bem cedo, alertado sobre os possíveis distúrbios que sua chegada no meio da multidão poderia gerar.
A função especial, organizada pela distribuidora Buena Vista Internacional, contou com a presença de 1.600 convidados especiais, entre os quais estavam vários artistas locais.
Tímidos aplausos surgiram quando na tela apareceu o nome do produtor, no final da exibição, enquanto Parker continuava imperturbável conversando com vzinhos em poltronas especiais.
Uma das presenças que chamou mais atenção na sala foi a do produtor argentino Juan Carlos Desanzo, autor da filme local Eva Perón, que propõe dar uma visão diferente à de Parker.
Parker havia sustentado em uma entrevista coletiva que o filme argentino é muito pequeno e tem a característica do que na Europa seria um filme para TV.
É lógico que Parker ache que meu filme é um filme de TV, porque ele gastou quase cem milhões de dólares e nós teríamos feito 80 filmes, respondeu Desanzo antes de entrar no cinema.
Não quero começar um julgamento prévio sobre a dele, mas está baseada na ópera, vai mostrar uma Evita que não condiz com a verdade. Eu não a defendo até a morte, mas acho que ela merecia uma versão mais complexa, enfatizou o diretor argentino.
Falta de rigorEm geral, os assistentes destacaram os valores musicais da superprodução. Não obstante, fizeram questionamentos sobre a falta de rigor histórico da trama original dos britânicos Lloyd Webber e Tim Rice sobre a vida da estandarte dos humildes.
A CGT (principal central operária, de tendência peronista) considerou, em um comunicado, que a imagem de Eva Perón foi insultada com o filme e anunciou que, como réplica, em sua sede será construída uma capela para render homenagens à líder dos descamisados.
Evita, a estandarte dos humildes, foi ofendida de novo, mas desta vez em um filme, expressou o texto assinando pelo secretário-geral, Rodolfo Daer, e pelo secretário da Ação Social da CGT, Raúl Amín.
O texto acrescentou, ainda: Sem menosprezar a arte, repudiamos todas as falsidades do filme protagonizado por Madonna, pelo espanhol Antonio Banderas e pelo inglês Jonathan Pryce.
Por isso, continuou o comunicado, e como forma de render uma homenagem que Eva Perón merece, a CGT encarregou à artista plástica Laura Novak a construção de uma capela, em nossa sede, como o aval da Igreja Católica.
O pequeno templo será construído no segundo andar da sede sindical, no gabinete onde Evita atendia os humildes, informaram porta-vozes do sindicato.
A estréia comercial do filme terá lugar amanhã em várias salas argentinas.


