Existem situações em que o bem pode se transformar em mal. Existem situações em que o mal pode se transformar em bem. Também existem aquelas situações em que tudo fica embaralhado, onde nada parece definido, bem e mal tornam-se um único corpo. Um corpo repleto de ramificações onde a mente humana não encontra nenhum guia, nenhuma sinalização de orientação.
Em seu novo livro de contos, o escritor Rubem Fonseca aproxima-se desse corpo e vislumbra suas ramificações. Centra sua atenção em duas ramificações em especial: a morte e o prazer sexual. ‘‘A Confraria dos Espadas’’, lançado pela Editora Companhia das Letras, traz oito contos no já consagrado estilo do escritor.
No conto que abre o livro, ‘‘Livre-arbítrio’’, um homem sente prazer em auxiliar mulheres a caminho do suicídio - mulheres que o procuram para isso. Como uma espécie de ‘‘Dr. Morte’’, realiza um acompanhamento sensual de suas ‘‘pacientes’’ até que estejam psicologicamente prontas para a aplicação de uma droga letal.
O objetivo do narrador não é ajudar mulheres, motivada pelas dores de uma doença incurável ou um sofrimento intolerável, a colocar um ponto final na vida. Seu objetivo é auxiliar, para a morte, pessoas saudáveis porque acredita que o livre-arbítrio no ato de encerrar a vida só é autêntico se a pessoa é tranquila, saudável, lúcida e gosta de viver.
Para ele, a liberdade, seja de decidir sobre a vida ou a morte, possui outras implicações: ‘‘Costuma-se associar antiteticamente a palavra liberdade a opressão, a escravidão, a cárceres, e aceita-se, convencionalmente, que a vida possa ser sacrificada num desafio heróico a esse estados. A associação de liberdade com violência é correta, mas não devemos esquecer que, como disse um filósofo, liberdade é também violação disso que chamam bom senso, liberdade é o direito - e o verdadeiro direito não é aquele que nos é dado, mas o que conquistamos - de pensar diferente.’’ReproduçãoAs histórias de Rubem Fonseca caminham com as próprias pernasMarcos Losnak
Especial para a Folha2

mockup