Linda até no nome, Olinda aguarda mais de um milhão de foliões para o período da festa momesca. Famosa pelo seu autêntico carnaval de rua, a cidade pernambucana de 471 anos inspira nos seus admiradores (e de quem costuma brincar nas suas ladeiras) uma explosão de alegria, fidelidade, declarações de amor e canções de exaltação. Beira quase a devoção. Em meio a confetes e serpentinas, Olinda sedia o Carnaval mais democrático e multicultural do mundo. Sem exageros.
O carnaval da cidade tem origem no entrudo, festa pagã trazida pelos colonizadores portugueses, que aos poucos incorporou costumes africanos. Só no século XIX é que surgiram o frevo e o passo, e depois as agremiações, das quais algumas ainda estão presentes na festa, como os clubes carnavalescos misto Lenhadores (1907) e Vassorinhas (1912). ''Aqui está o berço da História do Brasil. A cidade é animada, romântica e tem seus casarios seculares de vista para o mar. Costumo dizer que não moro em Olinda eu namoro Olinda'', se derrete o músico pernambucano Alceu Valença, fundador do Urso Maluco Beleza.
A festa de Momo é resultado da miscigenação do índio, branco e negro e seus desdobramentos. Daí saíram os bonecos gigantes (origem ibérica), o afoxé, o maracatu, o coco, a ciranda e caboclinhos, além das agremiações, troças, ursos e os clóves ou clowns (palhaços com máscaras de ''cabeça de moça''). ''Aqui você tem a tradição que foi capaz de se adequar às novas linguagens. O carnaval é estreitamente ligado as manifestações religiosas, a festa da carne que antecede a quaresma para a população expressar a liberdade e o prazer'', explica a historiadora do Arquivo Público de Olinda, Aneide Santana.
O carnaval na sua organização, trazendo a orquestra e estandarte, lembra a composição de uma procissão. ''O tradicional Ceroula, por exemplo, é colocado na rua pela irmandade da Procissão dos Passos e o Bloco da Saudade é benzido antes do desfile no Mosteiro de São Bento'', acrescenta Aneide. O carnaval olindense também deu espaço para surgirem blocos de segmentos profissionais: Eu Acho é Pouco (arquitetos), Siri na Lata (jornalistas) e Cimento (engenheiros). E também há aqueles que nasceram de propostas mais profundas, como os blocos da Saudade e Flor da Lira, que resgatam o romance, a fantasia, a expressão artística e o frevo poesia.
Festa A abertura do Carnaval acontece na quinta-feira, 23, com a apresentação da mega-orquestra formada por 300 músicos. Nos quatro dias de festa, além dos desfiles de quase 400 blocos, pólos de animação estarão espalhados pelos quatro cantos do Centro Histórico, trazendo atrações, entre shows (inclusive de bandas de rock local) e apresentações culturais. Detalhe: tudo é gratuito (a programação está disponível no site www.olinda.pe.gov.br).
Na segunda-feira, dia 27, vale conferir o Encontro de Bonecos, onde são reunidos cerca de 80 deles, um dos maiores símbolos do carnaval olindense. Quem quiser ver os detalhes dos blocos, pode aguardá-los no Passádromo, armado na Rua do Sol, em frente aos Correios. Toda faixa do Centro Histórico conta com policiamento efetivo da Polícia Militar e tratamento especial para o turista através da Companhia Idependente de Apoio ao Turista (Ciatur), que dispõe de policiais bilíngues. A Prefeitura ainda oferece guias-mirins que ficam no Receptivo Turístico, na Praça do Carmo, nº 100.
Para quem acha a Quarta-feira de Cinzas ingrata, ainda pode brincar carnaval. Cerca de 20 blocos, entre eles o Bacalhau do Batata e o Urso Maluco Beleza, vão arrastar os foliões que aproveitam a festa até o último momento. Porque em Olinda é assim: quem prova do Carnaval fica na melancolia até o ano seguinte, quando chega de novo o dia da festa. Vira caso de amor mesmo, como musicaram os compositores Clidio Nigro e Clóvis Vieira: ''Olinda! Quero cantar/ A ti, está canção/ Teus coqueirais/ O teu Sol, o teu mar/ Faz vibrar meu coração/ De amor, a sonhar/ Minha Olinda sem igual/ Salve o teu carnaval''.

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