Povoados andinos misturam rituais pagãos e cristãos
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terça-feira, 11 de abril de 2006
Fábio Vendrame<br> Agência Estado 
São Paulo Os povoados andinos explodem em festa durante a Semana Santa. As coloridas celebrações confundem ritos cristãos com elementos do paganismo, arraigado especialmente entre os descendentes incas que habitam cada vale da Cordilheira sagrada. Sim, para eles os Andes são a terra prometida. O culto à pachamama, ou mãe terra, resiste firme na Bolívia, no Peru e Equador, países que abrigam os mais importantes legados da cultura inca. São os filhos do Sol.
E os filhos do Sol, diga-se, são acostumados a compartilhar e a assimilar outras culturas o império inca consolidou-se absorvendo e preservando costumes das diversas etnias subjugadas pelos meandros andinos.
É, portanto, da natureza ameríndia associar novos costumes aos seus hábitos ancestrais. A Semana Santa, expressão máxima da fé cristã, reflete isso: as comunidades andinas encenam, cada qual a seu modo, o sofrimento, a morte e o renascimento do Cristo que lhes foi imposto e que aprenderam a respeitar. Há celebrações em milhares de vilas. E talvez as de maior representatividade ocorram nos Andes do Peru.
As regiões de Ayacucho, Cuzco, Huaraz e Tarma concentram as maiores manifestações do país vizinho. Ayacucho assiste, na Quarta-Feira Santa, a seu desfile nazareno mais importante, com a participação de milhares de pessoas boa parte turistas. Por tradição pagã, a cidade promove, no Sábado de Aleluia, uma feira popular em que se vende artesanato, se bebe a chicha (um tipo de cerveja de milho), se toma sopa e se masca folha de coca.
A grandiloquente Cuzco, outrora centro do império inca e atual capital arqueológica da América, leva às ruas o SeÀor de los Temblores, ou Taitacha, em quíchua, a língua ancestral. O culto remonta a 1650, quando um terremoto destruiu parte da cidade.
Aos pés da Cordilheira Branca, dominada pelo pico nevado Huascarán, a cidade de Huaraz, a mais de 3 mil metros, recebe cerca de 20 mil turistas nas procissões diárias da Semana Santa. E Tarma, a ''pérola dos Andes'', enfeita-se de flores e tapetes, numa das festas mais pitorescas e bonitas da época, comparável à da espanhola Sevilha.


