Andando sempre descalço, com os cabelos ao léu, June Mc Dowell vive numa casinha simples à beira-mar em Treasure Beach, ensinando pintura e colaborando em projetos comunitários. ''É difícil provar que, apesar de branca, não tenho nada a ver com os crimes cometidos no passado nem com a injustiça social que existe aqui'', diz ela. June é avó da mestiça Isabel, uma menina maravilhosa, de cabelos longos, castanhos e ondulados que se esparramam por sua pele escura. Seus olhos são da cor do mar do Caribe. ''Dizem que ela parece modelo brasileira'', comenta a avó, com a expressão meio orgulhosa, meio receosa da beleza da pequena.

A mistura de cores é uma realidade na Jamaica, e, durante muitos anos, foi também uma necessidade. Até 1950, por exemplo, as principais escolas jamaicanas só tinham vagas para brancos e mulatos. Os melhores empregos eram negados aos negros e as mães procuravam os brancos para ''embranquecer'' seus filhos, na tentativa de lhes oferecer mais oportunidade na vida.

Criou-se até uma escala de cores, com nomes específicos para a quantidade de sangue negro do mestiço. Se é metade negro, mulato. Um quarto negro, serafino. Um oitavo, rufino, e assim por diante. E quando falam que uma pessoa é negra, negra, negra, é que ela realmente é muito negra.

''Negro com muito orgulho. Não somos nativos daqui, mas da África'', diz Cecil John, um rastafari de 60 anos com dreadlocks de cabelos brancos até o tornozelo. O sentimento de africanismo é o que move a maioria dos jamaicanos e acabou criando uma identidade para nação. Eles desafiam a geografia e seu passado colonial e se sentem como se o país tivesse por acaso se desgarrado da África, deslizado pelo Atlântico e aportado no Caribe. ''Um povo que desconhece seu passado, sua origem e sua história é como uma árvore sem raiz'' diz John.

Foram justamente estas as palavras de Marcus Garvey, o pai do rastafarianismo seita religiosa de jamaicanos de origem negra africana que acreditam no retorno dos negros à África , que inundaram de orgulho os negros da Jamaica em 1930, muito antes do surgimento de Bob Marley e do reggae. Com Marley e seu ''get up, stand up, stand up for your rights'', o movimento tornou-se famoso internacionalmente, sobretudo na África.

Apesar de serem minoria cerca de 100 mil num país de 3 milhões de habitantes os rastafaris influenciam o modo de se vestir, de usar o cabelo, e principalmente o orgulho de ser negro do jamaicano.

A primeira coisa que se percebe na Jamaica é a pobreza generalizada. A segunda é o respeito que os jamaicanos impõem a qualquer um que se aproxima. Quando cumprimentam o próximo, dizem: ''I respect you'' (eu te respeito), olhando diretamente nos olhos. Não há aperto de mãos. O toque é feito com os punhos cerrados, suavemente, como num soco em câmera lenta. A mensagem é forte. Direta. O respeito pedido é o de um povo que teve esse direito negado, geração após geração. Mas eles não baixam a cabeça por causa disto. Nunca baixaram. (E.P./AE)

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