Potsdam Se fosse possível descrever um lugar apenas por sua importância histórica, Potsdam, a pouco mais de 20 quilômetros de Berlim, seria assim: o endereço dos reis da Prússia no século 18 ou, ainda, palco da reunião dos Aliados, em agosto de 1945 em que Truman, Churchill e Stalin retalhariam os despojos do pós-guerra, mas não evitariam a divisão da Europa e a Guerra Fria.
A meia hora de trem da capital alemã, a cidade de 130 mil habitantes é acolhedora e perfeita para se refugiar dos agitos da metrópole. As construções barrocas, que sobreviveram aos bombardeios da intolerância, um portão romano (Brandenburger Tor) e até uma região de prédios holandeses emolduram o passeio e permitem aquela clássica ''volta ao passado''. O detalhe é que passado, ali, tem data de começo e fim: de meados do século 18 até dez anos atrás. Sim, foi só em 1994 que os últimos 250 mil soldados russos que ali se alojaram após o fim da 2 Guerra bateram em retirada deixando marcas na cultura, na gastronomia e em muitas esquinas.
O ponto de partida da história de Potsdam pode ser considerado o reinado de Frederico II, o Grande (cuja altura não ultrapassava 1,56 metro), de 1740 a 1786. São suas invencionices que deslocam, exclusivamente, nove entre dez turistas até a cidade. Músico, estrategista e guerreiro, o Grande mandou erguer o Palácio Sanssouci como reflexo de seu lado culto. A idéia de construir o Palácio Novo, em 1763, porém, parece saída de um de seus surtos de excentricidade.
O primeiro foi erguido entre 1745 e 48 por Georg Wenzeslaus von Knobelsdorff, amigo de Frederico. A fachada rococó de apenas um andar, ornada por um domo verde, abrange uma coleção de objetos, como esculturas, cristais franceses, vasos chineses e relógios. A visita, na companhia de um guia, leva cerca de 40 minutos (terça a domingo, das 9 às 17 horas). E todos são obrigados a usar pantufas de feltro, para que o mármore do piso não exiba marcas de solados vindos de toda parte do globo.
O círculo de amizades do imperador não se limitava aos gênios das plantas-baixas e dos cálculos. Descobre-se, pelo relato dos guias, que os filhos do compositor Bach frequentavam Sanssouci, onde participavam de noites de concerto. Voltaire também privava da intimidade do imperador, de quem ganhou um aposento decorado no palácio. O filósofo francês passou três anos em Potsdam, de 1750 a 53. Uma leve engasgada do guia não disfarça as dúvidas que pairam sobre as ''preferências'' do todo poderoso.
De personalidade controversa e modos espartanos, Frederico II passou para a história como um homem de rara sensibilidade para questões artísticas e militares. Com igual determinação liderava tropas, desenhava vasos de porcelana e criava cachorros (foi enterrado ao lado dos 11 galgos de estimação).
Foi seu lado mais excêntrico o responsável pela idealização do Palácio Novo com 400 salas para ostentar seu poderio após vencer a Guerra dos Sete Anos contra a Áustria. A fachada em vermelho da ala ''nova'' pode ser vista da via de acesso, provavelmente para impressionar, de cara, a cortesãos e visitantes.
A maior beleza de Sanssouci, porém, está na área externa, de 98 hectares, no jardim majestoso com sete níveis de terraços. Na área arborizada destaca-se o Pavilhão do Chá, um prédio verde adornado com esculturas em tamanho natural de chineses bebedores de chá e músicos que reluzem à luz do dia.
Os ornamentos consumiram 3 quilos de ouro em pó. Um capricho do imperador só igualável à réplica do Fórum Romano que mandou erguer na colina à frente do palácio, ''para admirar a paisagem''.
Se ainda sobrar um tempo, vale conhecer o Babelsberg Studios, a Hollywood alemã da década de 20 (diariamente, das 10 às 18 horas). Foi ali, por exemplo, que diretores como Robert Wiene e Fritz Lang rodaram algumas de suas obras-primas e que estrelas como Marlene Dietrich (1901-1992) circularam.

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