Portugueses redescobrem o Brasil com mostra sobre os 500 anos; abertura acontece amanhã7/Mar, 15:03 Por Maria Hirszman São Paulo, 07 (AE) - Não é só no Brasil que os 500 anos do Descobrimento estão sendo lembrados. Amanhã (08), por volta das 18h30, será inaugurada no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, a primeira mostra do ciclo "Brasil, Brasis: Cousas Notáveis e Espantosas", com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso. A exposição, intitulada "A Construção do Brasil 1500-1825", é fruto de vários anos de pesquisa e procura reconstituir a história da maior ex-colônia portuguesa, do Descobrimento à Independência. Em seguida, virão as exposições "Olhares Modernistas", que poderá ser vista a partir de 28 de abril no Museu do Chiado, e "Jardim do Éden", que será aberta em 18 de janeiro de 2001 no Mosteiro dos Jerônimos, encerrando as comemorações. O trio de eventos organizado pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses é apenas uma ponta da movimentação que o aniversário do Brasil está provocando na ex-metrópole. O Brasil está na moda em Portugal. "Desde janeiro não se pode ligar o rádio, ver televisão ou ler um jornal sem tropeçar em informações sobre o Brasil", diz Tiago Reis Miranda, que responde, com o professor Joaquim Romero de Magalhães, pela curadoria de "A Construção do Brasil". Identidade - Segundo o historiador, essa mostra tem por objetivo não apenas resgatar a história do Brasil como permitir que os portugueses investiguem o próprio passado, redescubram a própria história. "Queremos expor a complexidade de frente, fazer com que esse momento não seja de auto-regozijos, mas de reflexão, de rediscussão e reflexão sobre a identidade dos portugueses", afirma. Assim, a análise de pouco mais de três séculos da história de sua maior colônia não apenas permite que os portugueses redescubram o Brasil como mostra em que medida "esse diálogo tem ajudado a compor nossa identidade", acrescenta. A mostra tem um caráter basicamente didático e historiográfico. Mas também foi pensada com o intuito de atrair o interesse do público, o que exigiu um intenso esforço de pesquisa. "Uma exposição não pode ser feita apenas com cartas, livros e objetos bidimensionais", afirma Reis Miranda, reconhecendo que tiveram algum trabalho para reunir "objetos que cativem os olhos dos visitantes, façam com que as pessoas se intriguem e participem de um ambiente que não lhes é usual". Para atingir esse objetivo, os organizadores contaram com a colaboração de 60 instituições e entidades particulares de Portugal, do Brasil e de outros países da Europa. Há na mostra destaques como um impressionante tronco de castigo de 4 metros de comprimento, que pertence a um museu carioca, ou o maravilhoso mapa manuscrito "Atlas Miller", no qual estão representados índios cortando e transportando pau-brasil no início do século 16 e que pertence à Biblioteca Nacional da França. Também foram utilizados recursos cenográficos de apoio, como a reconstrução em maquete de um engenho de cana de açúcar. Segundo Reis Miranda, o fato de estarem ocorrendo várias celebrações em torno dos 500 anos nos dois lados do Atlântico exigiu um grande esforço de coordenação por parte da Comissão dos Descobrimentos. Afinal, uma série de peças pertencentes a coleções portuguesas serão cedidas para mostras brasileiras. Basta lembrar que virá ao País o original da carta escrita por Pero Vaz de Caminha narrando o "achado" do Brasil. Outra peça de suma importância que os portugueses resolveram ceder ao Brasil é a tela "O Inferno", que pertence ao Museu Nacional de Arte Antiga de Portugal e poderá ser vista a partir do dia 27 no Masp. Essa significativa pintura do século 16 é a primeira representação dos índios, juntamente com a "Adoração dos Magos" (que ficou para a exposição portuguesa). Enquanto a primeira tela mostra um inferno repleto de elementos indígenas - o próprio diabo tem um cocar de índio - a segunda diviniza os índios e os mostra adorando os reis magos. "A Construção do Brasil" reúne cerca de 300 obras, divididas em sete núcleos temáticos: "As Primeiras Impressões"; "O Açúcar"; "Entradas e Fronteiras"; "O Ouro"; "Vilas e Cidades"; "O Brasil na Corte" e "A Identidade do Brasil". Paralelamente à mostra visual está sendo editado um grande catálogo com textos históricos de especialistas portugueses e brasileiros. Complementando essa exposição histórica, estão as mostras "Olhares Modernistas" e "Jardim do Éden". A primeira pretende apresentar aos portugueses a riqueza cultural brasileira nas primeiras décadas desse século. "Os modernistas brasileiros são pouco conhecidos em Portugal", lamenta o historiador. Segundo ele, "Olhares Modernistas" não se atém apenas às artes plásticas. "A aposta é fazer uma exposição sobre a história da cultura, para que a população descubra a enorme riqueza das manifestações artísticas desse período", explica. Já "Jardim do Éden" parte de uma idéia bastante inovadora. "A mostra se desenvolve a partir da noção de espanto diante da natureza e dos diversos tipos de olhar que foram se desenvolvendo ao longo dos anos sobre essa exuberante natureza", esclarece Reis Miranda. Segundo o historiador, um dos pontos de partida do projeto é o texto "Visão do Paraíso", de Sérgio Buarque de Holanda. Como a exposição tem um caráter multidisciplinar - a equipe está sendo comandada pela filósofa Ana Luiza Janeira, mas tem botânicos, paisagistas, arquitetos e outros profissionais entre seus membros - e utiliza complexos recursos audiovisuais, sua estréia teve de ser adiada até o próximo ano. Mesmo que o ciclo "Brasil, Brasis..." tenha apenas três mostras, isso não quer dizer que as comemorações dos 500 anos em Portugal se encerrem por aí. São dezenas de eventos em várias cidades. Nessa lista inclue-se, por exemplo, a ida de módulos da Bienal do Descobrimento. Atualmente já existem várias atrações "brasileiras" em cartaz no país. Entre os destaques da temporada, o historiador cita as exposições "Amazônia Selsínea", uma mostra em torno do trabalho do arquiteto bolonhês Antonio Giuseppe Landi, que esteve no Pará no século 18. Para ele, esta "é uma das exposições mais arrojadas já feitas pela Comissão dos Descobrimentos". Também merecem destaque uma mostra sobre os índios, organizada pelo Museu de Etnologia de Lisboa; uma grande exposição de arte contemporânea que abrirá as portas em 2 de maio, com curadoria de Antonio Pinto Ribeiro, e um interessante evento sobre como os portugueses que foram ao Brasil no fim do século 19 e início do 20 e retornaram a seu país ajudaram a redefinir a paisagem da região noroeste de Portugal a partir de elementos recolhidos em sua estada brasileira.

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