Ayrton Centeno
Agência Estado
Um livro que explica para todo o Brasil o significado de palavras e expressões como ‘‘pararᒒ, ‘‘empapuçar’’, ‘‘mumu’’, ‘‘cueca virada’’, ‘‘feito o carreto’’ e ‘‘chamar na chincha’’, entre muitas centenas, é o mais vendido na modalidade de não-ficção da 45ª Feira do Livro de Porto Alegre. Estes e outros termos figuram no ‘‘Dicionário de Porto-Alegrês’’, de Luís Augusto Fischer.
Na feira – considerado o maior evento do gênero em praça pública, no País, comercializando 20 mil livros por dia em seus 183 estandes – o dicionário de Fischer ultrapassou em vendagem os três best sellers nacionais de Eduardo Bueno: ‘‘A Viagem do Descobrimento’’, ‘‘Capitães do Brasil’’ e ‘‘Náufragos, Traficantes e Degredados’’.
Começando com o sufixo ‘‘al’’ – que designa ‘‘grande quantidade de algo’’, como mulheral, dinheiral e barral – e terminando com ‘‘zulivre’’ – disfarce de ‘‘Deus o Livre’’, mas usado agora como demonstração de alegria – o dicionário trafega por cerca de 1,4 mil verbetes. ‘‘Tentei ser meio cronístico’’, conta Fisher, um professor de literatura de 41 anos, autor também, entre outros títulos, de ‘‘Um Passado pela Frente’’, estudo sobre a poesia no Rio Grande do Sul. ‘‘Foram 15 anos de juntação e dois de redação’’, lembra, relatando como chegou ao dicionário.
‘‘Cuiudo’’ é um dos exemplos, definindo homem valente. ‘‘Biaba’’ é outro, significando tapa, bofetada. ‘‘Xumbrega’’, por exemplo, viria de Portugal. Existiu por lá um certo general alemão Schomberg, cujo nome teria dado origem a ‘‘xumberga’’ ou bebedeira. No sul, transformou-se em ‘‘xumbrega’’, adjetivo para coisas malfeitas ou desajeitadas. Seria, talvez, a origem remota do termo ‘‘brega’’, de igual significado, em uso no Brasil inteiro.
Não dá para esquecer algumas peculiariedades do porto-alegrês – um ‘‘dialeto’’ falado por cerca de 4 milhões de pessoas na capital e região metropolitana – que faz com que alguns vocábulos tenham sentido completamente diverso do restante do País. ‘‘Aqui a gente come negrinho’’, costuma ilustrar Fisher. Acontece que ‘‘negrinho’’ é como é conhecido em Porto Alegre o popular docinho brigadeiro. E, claro, o dicionário também contempla os clássicos ‘‘tri’’, ‘‘trilegal’’, ‘‘magro’’, ‘‘magrinhagem’’, ‘‘deu pra ti’’, emblemáticos da gíria da capital desde os anos 70.

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