Porto Alegre, uma viagem a alma gaúcha
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de julho de 2003
Ana Carolina Sacoman<br> Agência Estado 
Porto Alegre - Muitas são as peculiaridades que fazem da mais meridional entre as capitais brasileiras um lugar para lá de particular. Como num caldeirão, Porto Alegre soube muito bem juntar seu sotaque único a idiomas do mundo inteiro e, acima de tudo, preservar suas tradições. Se a tão propagada distância ideológica dessa metrópole de 1,3 milhão de habitantes do resto do País assustar, relaxe. É apenas fachada. Os gaúchos são um dos melhores anfitriões de que se tem notícia. E adoram mostrar suas belezas.
Se engana duplamente quem ainda imagina que as coisas boas do Rio Grande do Sul se resumem à região da serra, que é invadida nesta época do ano por gente atrás de neve e frio. Entre suas ruas um tanto estreitas e seus prédios antigos, a capital guarda preciosidades que valem a pena ser desvendadas, como qualquer destino turístico.
E, como toda capital, tem na região central um dos espaços mais fascinantes. As ruas de duplo nome o oficial e o apelido, este mais conhecido por todos , as paredes dos casarões e até mesmo os subterrâneos ajudam a contar um pouco da história deste lugar fundado em 1772 por imigrantes açorianos.
Começo de tudo Nada melhor, então, do que reservar boa disposição para andar pela região do porto, onde tudo começou. Depois de incluir a Praça da Alfândega que abriga três museus e, nos meses de outubro e novembro, dá espaço à Feira do Livro na peregrinação, siga, sem pestanejar, para o Mercado Público Central (Praça XV de Novembro, s/n.º), pois esta é a hora de reabastecer as energias e, quem sabe, fazer umas comprinhas.
A construção em estilo neoclássico, de 1869, tem dois andares bem distintos. No térreo, há uma infinidade de barraquinhas de ervas incluindo a especial para chimarrão, em muitas variações, a preços que começam em R$ 2,00 o quilo. Há ainda bancas de artigos religiosos, açougues, empórios como os de antigamente, cafés e até comida macrobiótica.
Não deixe, em hipótese alguma, de parar na Banca 40, uma instituição porto-alegrense. Fundado em 1927, o lugar produz a famosa bomba artesanal. Trata-se de uma salada de frutas com sorvete de fabricação própria nos sabores chocolate, creme e morango, coberta com chantilly (também chamada lá de nata batida). A extravagância calórica sai por R$ 4,50.
No andar superior estão lojinhas de lembranças, botecos e restaurantes. Se der sorte, o visitante verá uma cena inusitada: uma disputada feira de discos de vinil com preços que começam em R$ 1,00.
Fantasmas Vale, ainda, uma passadinha pela Praça da Matriz. No complexo, além da Catedral Metropolitana construída no lugar da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Madre de Deus de Porto Alegre e que teve as obras estendidas de 1920 a 1972 , estão os palácios Piratini, sede do governo do Estado, e Farroupilha, que abriga a Assembléia Legislativa, e o Teatro São Pedro.
A menos de dez passos dali fica o Museu Júlio de Castilhos (Rua Duque de Caxias, 1.231; (51) 3221-3959). Criado em 1903, é o mais antigo do Estado e conta com peças e documentos que ajudam a contar a história da formação desta parte do País.
Mas parece estar debaixo da terra a parte mais pitoresca da praça. Dizem que toda a área pertencia ao primeiro cemitério de Porto Alegre por volta de 1790 e que os cadáveres não teriam sido removidos quando o espaço começou a ser habitado. A lenda dá conta que 27 mil restos mortais ainda estariam por lá. Informação que, certamente, dá origem a histórias de fantasmas capazes de arrepiar os cabelos até do mais descrente dos mortais. Verdade ou não, o fato é que, pelo menos na catedral, há alguns túmulos de religiosos, o que pode e muito aguçar a imaginação.
Outra história diz que, também debaixo da praça, há um túnel que atravessaria parte da cidade em sentido longitudinal. A construção serviria para fugas em caso de invasão. Vai saber...
Se o cansaço bater, é hora de recorrer à poesia. Depois de andar para lá e para cá, relaxe tendo como cenário o pôr-do-sol do Guaíba. Basta estar nas proximidades da Usina do Gasômetro (Av. Pres. João Goulart, 551; (51) 3227-1383) e contemplar as variações de rosa que tingem o céu, enquanto raios dourados refletem-se na água. Um espetáculo que ajuda a desvendar um pouco da alma do gaúcho e a entender por que esse povo é tão orgulhoso de seu pedaço especialíssimo de mundo.


