Uma menina da platéia diz ter dificuldades em se tornar uma leitora frequente. Scliar, que acredita, sim, que os livros são intimidantes, e não à toa, símbolos de poder em diversas religiões, pensa que as portas de entrada são muitas. ''Você pode entrar via jornal, via revistas, via Internet. É algo que se incorpora e desta casa da leitura você não sai mais. Entre sem culpa.'' Cortella criticou a escola, instituição que, em sua opinião, deixa os alunos estudando as regras por anos sem praticá-las, escrevendo muito pouco. ''E o ato de escrever pode ser um convite à leitura. Estudar apenas as regras é como ficar dez anos aprendendo a técnica do futebol sem jogá-lo'', disse.
A Internet, que deixa muitos pais aterrorizados, é, na opinião de Scliar, a verdadeira volta do jovem ao texto. ''Aí vocês vão dizer: 'Mas eles escrevem tudo errado!'. Isso não tem problema algum. E olha que quem está falando isso é um membro da Academia Brasileira de Letras.'' O gaúcho aproveitou para criticar as regras demasiadas da gramática e citou a crase como uma ferramenta de poder utilizada para humilhar as pessoas. Cortella não perdeu o momento e presenteou o público com mais uma deixa. ''Sabe, sempre tive vontade de achar o cara que inventou a crase e o mandar a a...''.
Ainda sobre a web, o escritor gaúcho lembrou de um projeto em que ele foi o ponto de partida. ''Livro de Todos - o mistério do texto roubado'', lançado na feira sábado, teve o capítulo de abertura escrito por Scliar. Na sequência, através de um site de Internet, 172 pessoas, entre desconhecidos e famosos, escreveram a continuação do livro, em trechos avaliados, selecionados e editados por uma comissão. Continuando a sua fala, Scliar pediu para que não se deixem textos guardados na gaveta. ''Temos de trocar emoções. Um texto guardado exala algo venenoso. Mostrem, dividam os seus textos.''
Sabrina, uma menina de seis anos com uma borboleta pintada em sua bochecha, fez a pergunta final do público: como ela, que gosta muito de palavras cruzadas, pode encontrar o jeito mais fácil de resolvê-las? Momento de hesitação. Scliar, que foi médico, lembra que elas, as palavras cruzadas, não servem para nada, mas ajudam a tardar a chegada do Alzheimer - o que, ele mesmo levantou, não seria de muita utilidade para a pequena por um bom tempo. Cortella sugeriu que ela começasse por algumas publicadas nos jornais, as mais fáceis, e também os livros de palavras cruzadas para crianças. Ao saber que ela tinha seis anos, exclamou: ''Mas você é muito jovem! Os livros são feitos para quem já tem dez.'' Ela, orgulhosa, pergunta para a mãe: ''Mas o que eles são mesmo?'' À resposta, ''escritores'', ela sorri. (R.U.)

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