Portas abertas para a ousadia
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
O som dos tambores, acordeom e gaita de fole do grupo francês Baron Samedi, literalmente hipnotizou a platéia que lotou o Teatro Fernanda Montenegro, terça-feira passada, na abertura do Festival de Música de Câmara de Curitiba. Imagens do concerto foram divulgadas para o Brasil inteiro, pela TV Globo, mas apesar do sucesso, uma pergunta ficou no ar: seria a percussão também música de câmara?
Para os promotores do evento que terminou ontem à noite, com insuspeitado sucesso, a reação já era esperada. Eles programaram os franceses sabendo que isso causaria estranheza, mas a proposta era exatamente essa a de cutucar com vara curta, para gerar uma reflexão sobre o que é camerístico nesta mudança de século.
À pergunta percussão pode ser considerada música de câmara?, o maestro Emanuel Martinez, diretor-executivo e pedagógico do evento, devolveu com outras indagações: Por que percussão não pode ser considerada música de câmara? Por ter um som mais ruidoso? Por não ter a formação clássica dos instrumentos de cordas e metais? Pegando mais pesado, afirmou: Um conjunto de rock é um conjunto de câmara, só que voltado à música popular.
No transcorrer da semana o público que prestigiou o festival teve oportunidade de assistir a concertos de música árabe, indiana e celta, cada qual com suas características. O Quinteto Iowa, dos Estados Unidos, começou o programa de quarta-feira com uma peça onde apenas um integrante tocava e os demais elementos acompanhavam a música com suas próprias vozes.
Em resumo, o Festival de Música de Câmara de Curitiba, como o próprio nome sugere, está aberto à arte, sem fechar-se em especificações. Assim como recebe conjuntos convencionais, dentro dos moldes inspirados na clássica cultura européia, é também o território da música contemporânea e experimentalista. O evento em si foi experimental.
Quisemos com este trabalho estimular a troca de idéias, de repertórios entre os estudantes, motivar a concorrência entre eles, explicou Martinez. Esta é a primeira vez que Curitiba sedia um encontro nestes moldes; seguramente a iniciativa é rara em todo o País. O Brasil tem por característica valorizar a música de orquestra, os concertos, os solistas. Nem nas escolas a música de câmara tem vez, citou o maestro.
Quando o festival ganhou contornos definitivos, a expectativa era de fiasco. Especialmente pela falta de prática, não imaginávamos que tipo de resposta teríamos. A surpresa atropelou os promotores 23 conjuntos se inscreveram, alguns deles formados exclusivamente para participar dos cursos. Os professores que se reuniram em Curitiba estão entre os melhores do País, sem contar os internacionais.
Nossa idéia foi a de abrir o leque à música do século 20, à música brasileira e às novas texturas musicais, como a celta e a indiana. Essa foi a nossa proposta, e o público recebeu muito bem, já a partir do concerto do Samedi. Acredito que o importante é ousar, e o festival foi uma ousadia. Ele trouxe oxigênio ao setor, frisou Emanuel Martinez.
Começamos uma coisa que de alguma maneira já existia; havia uma tendência nesse sentido. O que fizemos foi abrir uma porta que esperava ser aberta, disse Cloris de Souza Ferreira, idealizadora do evento. Ela observou que este é o momento propício para a reflexão, para se repensar valores, pois ninguém sai impune numa época de transição de milênio.
Você só reflete quando ouve e pensa. Para mim, a música de câmara é a melhor tradução dessa prática, continuou Cloris. Ela vê esta formação musical como uma lição de vida, pois entre seus elementos impera um respeito intrínseco, com uma doação plena quando estão no palco.
Essa doação só acontece quando você dá vez ao outro, ouve a voz do outro instrumento. A sabedoria de ouvir é o que temos que aprender ou reaprender, para descobrirmos nossos pares, comentou.
A ousadia foi fundamental em todo o processo. Quando Cloris decidiu-se pela realização do Festival de Câmara de Curitiba sonho acalentado desde a juventude o conceito do evento foi um só: ser a contramão do esperado. Ao tomar contato com o trabalho do sexteto Baron Samedi, viu que ali estava o cartaz mais bem-acabado que poderia esperar para abrir o evento.
A agenda do grupo permitia um único dia o de Finados. Outro era impossível para os franceses e Cloris aceitou não só o desafio de iniciar o festival numa terça-feira de feriado que subentendia um feriadão desde a noite de sexta como também numa data de sentido religioso. Por que chorar no dia 2 de novembro, quando a gente pode ser feliz?, indagou. O impasse foi resolvido a partir desse questionamento.
Curitiba gosta das transgressões; ela tende ao novo, à ousadia. Com esse conhecimento da cidade, a empresária foi em frente. Só não esperava um teatro lotado e um público que se deixou arrebatar pela sonoridade do conjunto. A surpresa do evento não envolveu apenas a platéia; no dia seguinte choveram telefonemas de músicos para o escritório da Araucária Produções Artísticas, responsável pelo festival.
O evento do ano 2000 já começa a ser pensado. As experimentações deverão estar na pauta: Temos que descobrir, inclusive, a nossa própria linguagem. Ainda hoje nosso referencial é a música que vem de milênios. Essa base é imprescindível, mas temos que saber de nossas capacidades, assim como sabemos da capacidade de nossos ancestrais. É hora de ousarmos, da mesma forma como nossos ancestrais ousaram em suas criações. A música, se é forte, permanece. Se for fraca, perde-se no tempo. Desaparece. Temos que escrever nossa história a partir de agora, para que nossas páginas possam ser lidas por aqueles que virão. É a continuidade da existência, da mesma maneira como lemos as páginas deixadas de herança pelos mestres de outros séculos.





