Jackeline Seglin
De Londrina
Todo espaço é bem-vindo quando o objetivo é divulgar a arte. Principalmente porque a escassez de locais para exposições pode afastar a produção cultural do público. Em Londrina, a situação ameaça se inverter. Novos pontos alternativos estão surgindo com o crescimento do número de estabelecimentos que abriram as portas para as artes.
No último mês, pelo menos três empresas londrinenses inauguraram um espaço reservado às artes. O McDonald’s Drive Thru Higienópolis é uma delas. No dia 6, a lanchonete abriu uma exposição do artista plástico Júlio Gentil, seguindo a linha da loja do Catuaí Shopping Center, que desenvolve o projeto há alguns anos (atualmente, com obras do artista gráfico curitibano Celito Medeiros).
Segundo a assessora de marketing do McDonald’s Londrina, Hellen Saimi, o local já está recebendo currículos para montar o calendário de exposições do próximo ano. O McDonald’s tem repassado 15% da renda obtida com a venda das obras para a Escola Oficina Pestalozzi. A iniciativa faz parte do projeto interno ‘‘Nós Fazemos Pela Nossa Comunidade’’. ‘‘A cada ano, o McDonald’s vai adotar uma instituição diferente.’’ Hellen Saimi observa que a maioria das lojas da rede tem um espaço dedicado às artes. ‘‘O objetivo é facilitar o acesso dos nossos clientes à cultura. Sem contar que é uma oportunidade de colocar a empresa na mídia, mas de forma institucional e cultural’’, assegura.
Outro local criado recentemente é o da escola de idiomas Yázigi International, que desde o dia 2 abriga uma exposição de telas e objetos da artista plástica Regina Menezes. ‘‘As unidades do Yázigi têm espaços culturais para despertar a sensibilidade dos nossos alunos. Trabalhamos projetos culturais e de cidadania com eles’’, diz o diretor da escola, Augusto Melo.
A escola ganhou uma ala isolada para as artes. ‘‘Não é uma parede onde penduramos quadros. É um local específico. E estamos em vias de encontrar um curador para dar maior qualidade às exposições.’’
Melo pretende, ainda, realizar oficinas de arte. ‘‘E com público garantido, que são os nossos próprios alunos’’, afirma. As oficinas farão parte das campanhas de cidadania realizadas duas vezes por ano na escola. ‘‘Não temos só o objetivo de ensinar inglês. Estamos preparando cidadãos do mundo.’’
Na opinião do diretor, a iniciativa das empresas é positiva, no entanto, requer um alerta. ‘‘Quando as pessoas não entendem o conceito de espaço cultural, a coisa tende a se perder. No começo, muitos espaços vão aparecer. Mas vão permanecer aqueles que têm por trás pessoas que entendam e queiram realmente levar o projeto.’’
As concessionárias de automóveis também estão aderindo. Há duas semanas, a Fiat Bella Via entrou em contato com a Secretaria Municipal da Cultura para pedir indicações de artistas. Uma semana depois, inaugurou na loja a exposição ‘‘Faces do Tempo’’, do fotógrafo paulistano Sérgio Ranalli. ‘‘Estamos começando a desenvolver a idéia. Queremos expor as obras entre os veículos. Quadros, esculturas, fotos... Fazer um misto de comercialização de carro com cultura’’, diz o gerente de vendas, Valter Luís Costa.
O local também será aberto a outros artistas que queiram lançar CDs ou livros. ‘‘Os interessados podem entrar em contato. A Secretaria da Cultura está fazendo um cronograma de atividades. Desde que dê para conciliar o nosso trabalho com as exposições, não tem problema. É uma forma de divulgar a empresa e abrir mais espaço para a cultura.’’
O restaurante Tatanka Grill foi um dos primeiros restaurantes self-service a investir nas artes. Desde sua inauguração, em 1997, o espaço para exposições já estava previsto pelo proprietário, Luiz Carlos Igarashi. ‘‘Procuramos melhorar o ambiente, deixando-o mais bonito e agradável’’, explica. Para isso, ele procurou a artista plástica Yoshiya Nakagawara Ferreira, que ficou responsável pela seleção das obras. ‘‘A mudança, a cada dois meses, fica a critério de Yoshiya, que pessoalmente acerta os detalhes com os artistas.’’ As obras em exposição atualmente são da artista Eliane Macuco.
Depois de passar por uma reforma, em outubro, o self-service Dá Licença inaugurou o novo visual com uma exposição de Dolores Branco. A idéia deu certo e mereceu continuidade. O restaurante passou a expor telas de vários artistas da cidade. O que estampa as paredes internas do self-service no momento são trabalhos criados por alunos da artista Cristina Jardim, da Oficina de Arte.
E os clientes, o que acham da iniciativa? O casal Marilda e Natal Cardoso, frequentador diário de restaurantes self-services, aprovou a idéia. ‘‘Eu gosto, porque é uma coisa que chama a atenção. Procuro até saber quem é o artista’’, diz Marilda. ‘‘Sem contar que embeleza o local’’, completa Natal.
Do lado dos artistas, driblar a falta de espaços não é tarefa fácil. Quem acompanha essa dificuldade de perto é a chefe da Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da UEL, Maria Carla de Araújo Moreira. Na sua opinião, o fato de empresas estarem fazendo parcerias com a arte mostra a carência da cidade por um espaço adequado – um centro cultural que possa viabilizar atividades nas diversas áreas culturais. ‘‘É muito positivo. De qualquer forma, mesmo que não seja um espaço ‘ideal’ para exposições, são locais onde o artista pode estar veiculando um trabalho. E existe também a questão do olhar de uma pessoa que está se familiarizando com a arte.’’
Maria Carla acha que os locais alternativos devem, no entanto, respeitar os tipos de exposição que vão abrigar; ou seja, as obras devem estar adequadas ao espaço.
Criar mobilizações em favor da arte tornou-se um ato comum na vida de algumas pessoas. Que o diga o ortopedista Axel Hulsmeyer, presidente da Sociedade de Amigos do Museu de Arte de Londrina. Para ele, qualquer espaço em favor da arte é válido e, por isso, a iniciativa das empresas é importante. ‘‘A idéia é ótima. Só vem acrescentar. Ajudar a arte não é uma coisa comum, e quando a gente vê uma empresa fazendo isso é muito bom.’’ E conclui: ‘‘O artista depende de espaços. E quanto mais espaços houver, melhor será.’’Empresas londrinenses investem em locais para expor obras de arte, ampliando as opções tanto para quem produz quanto para quem admira
Josoé de CarvalhoO Yázigi criou um ambiente específico para exposições que já tem nos alunos da escola público cativoDorico da SilvaFotografias convivem com automóveis no saguão da concessionária Fiat Bella ViaNas lojas do McDonald’s as obras frequentam as paredes e chamam a atenção dos freguesesJosoé de CarvalhoAs exposições são substituídas a cada dois meses no restaurante self-service Tatanka Grill

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