Porta-voz dos tempos modernos
Fafá de Belém lança “Humana”, álbum que trata de temas contemporâneos através de músicas de compositores consagrados
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de abril de 2019
Fafá de Belém lança “Humana”, álbum que trata de temas contemporâneos através de músicas de compositores consagrados
Marcos Roman - Grupo Folha 
A cantora e compositora Nina Simone (1933-2003) costumava dizer que é uma obrigação de todo artista refletir sobre questões do seu tempo. Essa premissa é seguida à risca por Fafá de Belém em seu novo álbum, intitulado "Humana". Nele, a paraense deixa de lado suas habituais baladas despudoradamente românticas para dar voz a temas contemporâneos e urgentes. Munida de um repertório primoroso que inclui canções inéditas de Fátima Guedes, Adriana Calcanhoto e Letrux, Fafá convida o ouvinte a uma viagem introspectiva em busca de delicadezas esquecidas.
Para dar seu recado, a cantora optou por uma conversa ao pé do ouvido em meio ao que ela chama de 'gritaria generalizada' e embalou as canções com arranjos que passeiam por elementos do rock com pitadas de blues. O resultado é uma sonoridade moderna responsável por dar um sopro de renovação ao trabalho da artista que uniu passado e presente ao misturar canções de compositores consagrados com músicas compostas por nomes da novíssima geração indie da MPB. Dentre eles, a politizada paulistana Letrux; Zé Manoel, maranhense apontado como um dos grandes compositores de sua geração e que musicou o poema “Eu Não Sou Nada Teu”, escrito pelo estilista Conrado Segreto; além de Arthur Nogueira e Ava Rocha (filha do cineasta Glauber Rocha), autores da canção “Ave do Amor”, com letra inspirada na força interpretativa da artista paraense e foi escolhida para abrir o disco.
As temáticas abordadas por ela falam da ótica feminina sobre o amor, retratada pela música “Eu Sou Aquela” (Joyce Moreno e Paulo César Pinheiro) e também versam sobre política, em “O Resto do Resto” (Fátima Guedes”); a inquietude dos tempos modernos (“Alinhamento Energético”, de Letrux); e questões existencialistas (“Revelação”), sucesso de Fagner composto por Clésio & Clodô Ferreira nos anos 1970. Há ainda o discurso explícito em prol da liberdade proposta por Lulu Santos em “Toda Forma de Amor”.

“Humana” mostra Fafá em momento de plenitude, explorando timbres que ora soam pungentes e dramáticos, como na versão de “Dona de Castelo”, belíssima canção de Jards Macalé & Wally Salomão, e por vezes remetem à voz serena e doce da cantora em seu início da carreira. É o caso da delicada interpretação de “O Terno e Perigoso Rosto do Amor”, que tem melodia criada por Adriana Calcanhoto a partir dos versos do poema homônimo assinado pelo francês Jacques Prévert. “Eu costumo dizer que esse não é um disco para sair gritando; gritando todo mundo já está. É hora de falar a sério, olhando no olho, com muita tranquilidade sobre a situação de cada um de nós, de que forma o mundo está nos tratando e de que forma o ser humano está sendo tratado. Nesse mundo de gritos, para a gente sobreviver, a gente tem que se voltar pra dentro”, reflete Fafá.
Lançado apenas nas plataformas digitais, “Humana” foi editado pela gravadora Joia Moderna, criada pelo DJ Zé Pedro, que assina a direção de produção do disco. A direção musical foi feita por Arthur Nogueira, cantor e compositor paraense. A concepção artística foi dividida entre Fafá e Paulo Borges, idealizador da Sâo Paulo Fashion Week, que também assina a direção do espetáculo homônimo do disco. “Esses profissionais deram corpo e voz a essa mulher livre, introspectiva, que tem uma vida e uma atitude muito próprias, que é destemida e grita seus amores, suas dores e suas dúvidas. Para gargalhar e sorrir na vida, a gente precisa olhar para dentro e ter uma base muito forte de relacionamento com o eu interior. Por isso, demos a esse projeto o nome de Humana”, resume Fafá.
Em meio às gravações da série “Férias em Família”, produzida pelo canal Multishow, da qual faz parte do elenco, Fafá respondeu por e-mail uma entrevista exclusiva à FOLHA.
“Humana” trata de temas bastante contemporâneos. Foi difícil chegar a esse repertório tão primoroso e coeso?
Não diria difícil, mas intenso. Desde agosto do ano passado, depois eu passei um tempo gravando as minhas histórias para transformar em biografia, comecei a mergulhar em questões que me angustiavam, várias coisas foram passando pela minha cabeça. Eu queria que as pessoas refletissem sobre o momento que se vive, queria falar de afeto e que toda forma de amor vale a pena. Esse projeto nasceu da necessidade de se falar de emoções verdadeiras, do lado humano do ser. E a escolha das músicas foi seguindo essa linha.
Tem alguma canção preferida no disco?
Não consigo escolher alguma preferida. Impossível! Fiquei profundamente tocada com a música do Conrado Segreto. A faixa da Adriana Calcanhoto me deixou muito feliz também porque queria gravá-la há anos e nunca dava certo. A música é de uma delicadeza absoluta e tinha tudo a ver com a proposta do disco.
Como tem sido a reação dos seus fãs mais convencionais em relação a essa mudança tão radical tanto no repertório e quanto na sonoridade deste novo trabalho?
Tem sido ótima. Além do álbum estar sendo muito bem recebido, a estreia do show em São Paulo foi arrebatadora, com ingressos esgotados e o público muito sintonizado comigo.
Em sua última passagem por Londrina, em 2010, a convite do Festival Internacional de Música, quase tiveram que abrir uma sessão extra no Teatro Ouro Verde devido à grande demanda de público. Pretende trazer esse novo espetáculo pra cá?
Pretendo viajar o Brasil todo e levar esse show para todos os cantos. Espero que o público de Londrina tenha a possibilidade de assisti-lo também. É um show sensacional.

Serviço:
Álbum “Humana”, de Fafá de Belém
Gravadora – Joia Moderna
Disponível nas plataformas digitais


