Porque sua vida dava um filme
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terça-feira, 20 de outubro de 2009
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
Eles vieram para Londrina em busca de uma vida melhor, e impressionados com as histórias que se contavam sobre a fertilidade da terra vermelha. Passaram por dificuldades semelhantes: falta de energia elétrica, de água encanada e esgoto, a lama, os poucos recursos. Trabalharam muito. Mas também foram aos bailes, quermesses, tiveram filhos e viram a cidade prosperar.
Resumir a vida de cada pioneiro de Londrina a esse pequeno parágrafo, porém, é diminuir demais a existência e a importância de cada um. E o documentário Nos olhos de quem vê deixa isso muito claro. Em 30 minutos, o filme intercala relatos de oito moradores da Vila Nova, o primeiro bairro da cidade, para mostrar quanta vida se concentra nos detalhes que diferenciam uma história da outra. O curta-metragem resgata os primórdios da cidade e do próprio bairro através das experiências pessoais de cada entrevistado, e acaba remexendo também na memória do próprio espectador, já que é impossível não se identificar com algumas cenas.
Só por isso Nos olhos de quem vê já seria um documento relevante. Mas ele é maior ainda: o filme foi feito por alunos do colégio estadual Nilo Peçanha, dentro do projeto Roda Memória. Cinco jovens com idades entre 13 e 17 anos participaram de dois meses de oficina com pesquisa, entrevista, captação das imagens e pré-edição das mais de 15 horas de material.
Apresentado na semana passada para cerca de 30 pessoas, entre alunos, pioneiros e familiares, o filme arrancou risos e aplausos com os relatos de Ângela Garcia, Antônio Gouveia, Elder Senne, Eunice Gongora, Francisco Garcia, Ilda Brandalize, Juvenil Marcon e Nadir Noé gente simples, mas com várias lições para dar.
Foi gostoso relembrar e contar. Apesar das dificuldades, tive uma infância e juventude muito boas, não posso me queixar. Naquela época não tinha tanto perigo, vivíamos com mais liberdade, comparou Ilda Brandalize, 78 anos, moradora do bairro desde 1939. Se as pessoas não conhecem o passado, não sabem por que existe o presente, refletiu.
Outra estrela da noite, o casal Ângela e Francisco Garcia, 85 anos, viu sua família comparecer em peso para assistir à exibição. Não esperava isso, não. Conversamos até demais, não foi?, comentou seu Francisco, visivelmente emocionado, para em seguida convidar a repórter para passar em sua casa qualquer dia para outra prosa.
Cada entrevistado ganhou uma cópia do documentário, junto com a certeza de que sim, sua história merece ser eternizada junto ao mosaico que compõe a história do bairro. E quem esteve presente sentiu que a sua própria história também era importante.
Antigamente, para fazer um telefonema para fora da cidade tinha que ir a uma cabine, pedir a ligação à telefonista e aguardar horas. Às vezes nem conseguia. Hoje, as pessoas têm um modo de viver com internet, celular, e acham que toda vida foi assim. A gente tem que contar as histórias para que os jovens saibam como a vida era difícil e valorizem o que têm hoje, definiu Carlos Garcia, 58 anos, filho de Francisco e também cheio de histórias para contar: ele foi o primeiro policial a fazer um parto dentro de uma viatura em Londrina, e, bem, o resto fica para uma outra matéria ou filme, quem sabe?


