Quem apostou no escândalo a partir do título falsamente óbvio perdeu. Em concurso na principal seção competitiva do Festival de Veneza, ‘‘Pornografia’’ se inscreve no filão que retrata uma burguesia em fuga da guerra, tema de resto banalizado em muitas cinematografias, mas aqui recebendo um acurado estudo social e psicológico. Dirigido por Jan Jakub Kolski a partir do romance do aclamado escritor Witold Gombrowicz, o filme narra as atribulações de um grupo de pessoas de Varsóvia que, para fugir dos alemães em 1943, se refugia num lugar mais ou menos tranqüilo no campo – numa floresta próxima, a resistência polonesa faz o que pode contra o invasor nazista. Dois novos personagens são incorporados a este quadro familiar, o narrador Witold ( o próprio escritor) e o mefistofélico Frederick, que esconde um segredo somente revelado nos últimos 15 minutos.
  Pornográfica, na visão de Kolski, é a lógica niilista que impulsiona Frederick, animado por um apocalíptico ‘‘tanto pior, tanto melhor’’, que o faz subverter a natural ordem afetiva entre os dois mais jovens integrantes do grupo. Mas não apenas isso. O filme mergulha fundo e pega pesado na (in) consciência que acompanhou à distancia os desdobramentos de uma guerra que não desgruda da memória da Europa. Um pouco duro de cintura, lento e contemplativo. Performance leonina do polonês Krysztof Majchrzack, candidatíssimo a Copa Volpi de melhor ator. (C.E.L.J.)

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