Celso Mattos
De Londrina
Em roupagem de fábula, ‘‘A Vida em Preto e Branco’’, é uma espécie de ‘‘Alice no País das Maravilhas’’, que mostra dois jovens irmãos dos anos 90, fazendo uma viagem através da tela da televisão para entrar num seriado dos anos 50, chamado ‘‘Pleasantville’’, filmado em preto-e-branco. De uma hora para outra, os irmãos David (Tobey Maguire) e Mary Sue (Reese Witherspoon) se vêem obrigados a trocar todos os valores atuais deste conturbado final de século, pelas atitudes antigas da era pré-Kennedy.
Como todo programa televisivo feito na época do ‘‘American Way of Life’’, a cidade-título é tão familiar e nostálgica quanto um rótulo de Maizena. Ninguém tem problemas financeiros, o time de basquete da cidade nunca perde uma partida, pais e filhos vivem em completa harmonia e ninguém faz sexo. Mas essa falsa tranquilidade começa a sofrer uma revolução quando os irmãos entram no programa e subvertem a ordem estabelecida.
A primeira mudança na pacata Pleasantville surge quando Mary Sue mostra ao seu namorado, no seriado, que o banco do carro tem bastante espaço para outras coisas além de ficar apertando as mãos. Conforme os personagens da série vão experimentando sentimentos como amor, ódio e prazer, começam a ver o mundo colorido. O primeiro problema a surgir na cidade é o racismo. Os personagens ‘‘coloridos’’ são perseguidos e menosprezados por aqueles que ainda continuam em preto-e-branco.
Por trás de uma fábula com cara de sessão da tarde, o filme dirigido pelo estreante Gary Ross faz críticas sarcásticas ao preconceito, à intolerância e ao conformismo do ‘‘American Way of Life’’. ‘‘A Vida em Preto e Branco’’ é sobre pessoas enfrentando mudanças, sendo capazes de lidar com elas e libertando o que têm dentro si, suas verdadeiras cores. A metáfora pode parecer óbvia, mas funciona maravilhosamente bem. Faz a gente pensar em como nossas vidas muitas vezes precisam de cores novas para vivermos melhor.
Inexplicavelmente, ‘‘A Vida em Preto e Branco’’ fez pouco sucesso nos cinemas americanos e brasileiros, mesmo sendo indicado a três Oscars: melhor direção de arte, figurino e trilha sonora. É um grande filme e merece ser visto. Lançamento da Warner Home Vídeo. Duração: 124 minutos.

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