Por uma música ''impopular'' brasileira
WILMAR KLEIN
Por uma música impopular brasileira
É preciso que se diga a esses jovens compositores que o dodecafonismo, em Música, corresponde ao Abstracionismo, em Pintura, ao Hermetismo, em Literatura, ao Existencialismo, em Filosofia, ao charlatanismo, em Ciência... É uma expressão característica de uma política de degenerescência cultural, um ramo adventício da figueira-brava do Cosmopolitismo- Camargo Guarnieri, em Carta Aberta datada do imediato pós-Segunda Guerra.
... a obra não é brasileira como é antinacional, escreveu Mário de Andrade, a propósito de determinada composição (afinada com a vanguarda européia da época), em seu Ensaio sobre Música Brasileira (1928). Essencialmente, prossegue o escritor, o autor dela deixa de nos interessar. Digo mais: por valiosa que a obra seja, devemos repudiá-la, que nem faz a Rússia com Stravinsky e Kandinsky.
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As duas terríveis manifestações de intolerância xenófoba, reacionarismo e miopia nacionalista acima transcritas - a primeira, contemporânea e congenial às teses de Andriêi Zdanov sobre o realismo socialista, expressão artística do obscurantismo stalinista; a segunda, antecipadora de vários aspectos dessas mesmas teses - deveriam restar, hoje, como testemunhos lamentáveis de um nacionalismo tacanho, porém superado. Infelizmente, não é bem assim, pois, como observou o compositor Gilberto Mendes, veterano propugnador de uma vanguarda cosmopolita, num estudo enfeixado na coletânea O Modernismo (Perspectiva, coleção Estilos, 1975), essa nefasta identidade de pensamentos (a semelhança entre os pontos de vista de Andrade, Zdanov e Guarnieri) é ainda a força oculta que procura barrar todas as novas tentativas de pesquisa, experimentação, de avanço musical.
Vinte e cinco anos depois, estas palavras continuam válidas neste Brasil que prepara-se para comemorar os 500 anos do seu Descobrimento - ocasião propícia para um revival dos grandes vultos da nacionalidade, entre os quais, no plano das artes, se incluem com facilidade Mário de Andrade, Camargo Guarnieri e, principalmente, Villa-Lobos, que, vanguardista de outros tempos, incompreendido, tornou-se a bandeira nacionalista contra a vanguarda de nossos tempos (cf. Mendes no estudo mencionado).
Vale perguntar por que Villa-Lobos, Cláudio Santoro, Guerra Peixe, Radamés Gnatalli, entre outros compositores de inspiração nacionalista, foram tão facilmente alinhados (já nos primeiros anos da ditadura militar, e mesmo antes) como patrimônios da cultura oficial brasileira, burocrática, naftalinizada, e do mesmo duvidoso privilégio nunca desfrutaram criadores com propostas formais mais ousadas como o próprio Gilberto Mendes - idealizador de um dos mais antigos festivais de músicas de vanguarda do mundo, o Festival Música Nova, realizado em Santos (SP) desde 1962 - Damiano Cozzella, Rogério Duprat, Willy Corrêa de Oliveira e, antes de todos eles, o professor Hans-Joachin Koellreuter, pioneiro na divulgação da nova música em nosso país.
Obviamente, a obtusidade nacionalista não se restringe ao âmbito da música erudita. De novo, Mário de Andrade: O critério histórico atual da Música Brasileira é o da sua manifestação musical que sendo feita por brasileiro ou indivíduo nacionalizado, reflete as características musicais da raça. Onde que estão? Na música popular. Passados mais de 70 anos desde que o autor de Macunaíma emitiu as suas distorcidas convicções musicais, o mesmo equívoco vem sendo cometido, obrigando a que se contraponha ao zelo e à burrice nacionalistas a observação de que não existe nenhum gênero de música popular brasileira (samba, pagode, axé, forró, maracatu, frevo, sertanejo, o que quiserem,) cuja origem não seja estrangeira. Não há, portanto, em que fundamentar, nem na esfera da MPB, nem na esfera da música erudita, as tais características musicais da raça.
Acresce a isso, como igualmente injustificável, a alegação ufanista, quase um clichê, de que somos o país musicalmente mais rico do mundo (querendo com isso firmar uma pretensa superioridade qualitativa). Diversidade é um critério de quantidade, e não de qualidade. Qualquer dúvida quanto a isso, ligue o rádio numa AM ou FM qualquer, ou assista aos programas de auditório da TV aberta. Se o que se ouve nesse veículos é a expressão da nossa riqueza musical, então estamos, de fato, bem arranjados.
A questão, porém, é mais ampla e envolve a necessária constatação de que os brasileiros somos pobres em informação musical, razão pela qual sempre fomos refratários aos aportamentos da vanguarda estrangeira, da música de invenção, em relação à qual não raro se ouve dizer que isso não é música. Quer no plano da MPB, quer no da música erudita, continuamos aferrados às constantes melódicas e rítmicas, rechaçando qualquer música que não privilegie esses elementos constitutivos.
500 anos é relativamente pouco tempo, do ponto de vista histórico, porém é tempo mais do que suficiente para começar a se pensar na admissão de uma música impopular brasileira. Isto é, feita por brasileiros, mas sem qualquer ranço nacionalista; uma música mais complexa, que exija a educação do ouvinte, maior atenção, maior repertório de informações, porém uma música mais rica, mais inventiva. Ou, então, esquecemos tudo isso e continuamos sendo o país dos Chitãozinhos e Xororós, dos pagodeiros, dos neoboleristas e de todo o resto que constitui o pasto da hegemônica e acomodada mediocridade musical brasileira.





