Por uma morte digna
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sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
Uma das companhias teatrais de maior prestígio no Brasil, a Cia do Latão, de São Paulo, apresenta no Filo 2013 a montagem "Sociedade Mortuária Uma peça camponesa" hoje e amanhã, às 21 horas, na Usina Cultural, com ingressos já esgotados. Primeira parte do projeto Ópera dos Vivos, que contempla quatro atos (peças) - que quando apresentados na íntegra têm duração de quatro horas -, o espetáculo com quase uma hora e meia de duração mantém o forte cunho político do grupo, acostumado a arrancar aplausos do público e da crítica especializada há quase 17 anos de atuação, mesmo trabalhando com temas "indigestos". "Preferimos temas do mundo real e assim fugimos de uma certa tendência do teatro contemporâneo de trabalhar temas mais amenos ou muito autocentrados, autorreferentes", afirma o diretor Sérgio Carvalho, em entrevista por telefone.
Partindo de uma investigação sobre momentos em que a cultura brasileira esteve mais politizada e, consequentemente, menos institucional e mercantilizada, a peça se passa no início da década de 1960 e faz uma parábola histórica sobre um grupo de camponeses que no final dos anos 50, fizeram parte das Ligas Camponesas, surgidas no interior do Estado de Pernambuco, a partir das "sociedades mortuárias", associações de camponeses que se cotizavam para comprar caixões e realizar enterros dignos.
Tendo como pano de fundo uma burguesia latifundiária em crise, pessoas simples do povo viviam na pele a consequência de uma profunda desigualdade social que até hoje marca a sociedade brasileira, principalmente a nordestina. "Se não fosse dessa forma, as pessoas eram enterradas diretamente na palha, ou às vezes contavam com caixões emprestados para o velório, mas que não podiam ser levados para debaixo da terra", conta o diretor. Reflexo de uma vida miserável, o momento da morte seria a última chance de se buscar um pouco de dignidade no final da vida.
Contrapondo com a Guerra Fria e as jornadas de alfabetização liderados pelo educador Paulo Freire, a montagem questiona a importância da aprendizagem política, das letras e também do teatro, já que os atores atuam como se estivessem em um ensaio teatral, permitindo assim que o público se aproxime de certa forma do fazer teatral. Para isso, eles usam um tipo de palco bem intimista, em que o público fica bem próximo dos atores, saindo do tradicional palco italiano. "Isso também faz parte do nosso trabalho de pesquisa, que é o de observar a reação do espectador em cada um dos formatos de palco que utilizamos", observa o diretor Sérgio de Carvalho. "É interessante instigarmos no público a reflexão de que muitos 'atrasos' do mundo globalizado têm conexões com questões do passado e as condições de vida das pessoas. É preciso criarmos esses vínculos", acrescenta Carvalho.
Na montagem, o público também poderá conhecer o trabalho dos "Corpos da Paz", do governo Kennedy, em que estudantes americanos vinham ao Brasil com o objetivo de promover a ajuda humanitária e indiretamente difundir o imperialismo americano.


