Uma prática comum a todas as religiões é o voto de pobreza e humildade como forma de manter os sacerdotes afastados das preocupações terrenas da ambição e da acumulação de riquezas materiais. Preocupado com essa questão, um discípulo disse ao seu mestre que, mesmo tendo abandonado tudo, ainda não tinha conseguido alcançar a iluminação que desejava. E o mestre: ''Então se desapegue do desapego''.
Resolver questões paradoxais e aparentemente insolúveis com simplicidade é uma das características do Zen Budismo, que utiliza a técnica do Koan para paralisar o raciocínio lógico/linear e intelectualizado de quem pretende compreender algo sem se deixar envolver por aquilo que busca na experiência.O músico John Cage, um colecionador de Koans, contou a seguinte história no livro ''De Segunda a Um Ano'': Dois monges estão para atravessar as margens de um riacho, quando aparece uma moça e pede para ser conduzida até o outro lado porque não pode molhar seus sapatos. Solícito, o primeiro monge a levou até a outra margem, ela agradeceu e se foi. Depois, até então andando calados, o segundo monge perguntou ao primeiro por que ele a pegou no colo, sabendo que monges não podem tocar em mulheres. A resposta foi rápida: ''Eu já larguei a moça há horas no chão. Está mais que na hora de você soltá-la também''.
Outra dessas histórias fala de dois monges de ordens diferentes, também às margens de um riacho que precisava ser atravessado, quando um deles começou a entoar um mantra para separar as águas e o outro o interrompeu, levando-o um pouco mais abaixo de onde estavam e mostrou como se fazia: pulando as pedras. A arte Zen, aliás, costuma ser muito interessante porque ''humaniza'' o pensamento sobre o fazer. Na cerâmica, por exemplo, há sempre pequenos ''defeitos'' criados propositalmente para quebrar a rigidez da idéia de perfeição, tornando-se mais ''estética'' e menos padronizada. A transcendência, para eles, está na imanência. Ou, como escreveu o poeta Paulo Leminski com versos/desapego, pregando a soberania pelo próprio destino, musicado por Edvaldo Santana: ''... Dá um tempo Deus/ cuide de seus assuntos/ que eu cuido dos meus''. E o hai-kai, falando da natureza, toca a fundo nossa sensibilidade: ''Este caminho/ já ninguém o percorre/ salvo o crepúsculo'' (Bashô).
Nessa linha, também a arte contemporânea desenvolve questões como a ausência ou a quebra de fronteiras que separam as manifestações humanas, chegando às raias da própria indefinição sobre se algo é ou não arte, criando ações que interferem diretamente na vida das pessoas, ''dissolvendo'' a arte no cotidiano sem se preocupar em definir isto como arte, religião, filosofia, ou seja lá o que for, abrindo mão de qualquer garantia ou validação como instituições, museus ou galerias de suas realizações.
O contrário também é possível. Ou seja, manifestações de protestos individuais, ou de grupos de ativistas, como recentemente aconteceu em São Paulo, em um evento contra a violência, onde colocou-se em uma calçada, no centro da cidade, centenas de pares de sapatos, de vítimas fatais da violência urbana. Uma imagem contundente, lembrando uma instalação, embora sem o rótulo de arte, o que, talvez, até esvaziasse seu sentido original de chamar a atenção para o caso.
Perguntado sobre qual o caminho para se encontrar Buda, o mestre respondeu ao discípulo: caminhe.
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