POR UMA ESCOLA 10 Recreação e cultura reduzem violência
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Caroline Vicentini<br> Reportagem Local 
Alunos com baixa auto-estima, desmotivados para estudar. Brigas no interior e arredores da escola por motivos, na maioria das vezes, banais (um aluno chegou a perder um olho e três dedos ao lançar uma bomba na quadra de esportes do colégio). Ocorrências frequentes de furtos e roubos. Traficantes de drogas aliciando os estudantes. Depredação do patrimônio escolar (vidros e trincos das portas quebrados; muros e paredes pichados). Há quatro anos esta era a triste realidade do Colégio Estadual do Jardim Independência, localizado na periferia de Sarandi (7 km a leste de Maringá). Carentes em todos os sentidos, na definição da diretora Eliane Aparecida Valério, sem perspectivas de um futuro promissor, os alunos sentiam vergonha de vestir o uniforme do próprio colégio e a evasão escolar também era outro problema a ser enfrentado.
Conscientes da gravidade da situação a direção do colégio decidiu
envolver a comunidade escolar (pais, alunos, professores, equipe pedagógica, direção, funcionários, Associação de Pais, Mestres e Funcionários (APMF) e Grêmio Estudantil) na tentativa de reverter esse quadro. Nascia, assim, em 2004, o projeto ''Por uma Escola 10'', que, graças à inclusão de atividades de comunicação, cultura, meio ambiente e esporte e, principalmente, pelo trabalho de recuperação de auto-estima e construção da cidadania, conseguiu reduzir os índices de violência, vandalismo e evasão escolar. O Colégio Estadual do Jardim Independência possui 1.650 alunos da 5 série ao 3º ano do Ensino Médio. O projeto é atualmente aplicado com os alunos dos períodos matutino e vespertino.
O principal subprojeto do ''Por uma Escola 10'' é o ''Projeto Dinâmico de Educação'', mais conhecido pela comunidade escolar como ''Intervalo Dinâmico''. Dos tradicionais 15 minutos, os alunos ganharam mais 25 (o tempo das aulas foi reduzido de 50 para 45 minutos) para lanchar e desenvolver atividades de lazer, esportivas e culturais. ''O objetivo é retirar o local da aquisição do conhecimento somente de dentro da sala de aula. Além disso, como os alunos residem em um local carente de espaços de recreação, podem desfrutar da estrutura ofertada pela escola'', explica a diretora. Dentre as atividades esportivas estão basquete, vôlei, futsal, tênis de mesa, xadrez e ''3, Corta''. Um videokê está à disposição de quem quiser treinar os dotes musicais. A biblioteca também está aberta para os que preferirem fugir da agitação e mergulhar na leitura. De acordo com Eliane, alunos com a característica de liderança, às vezes negativa, são convidados a monitorar as atividades e colocar ''ordem na brincadeira''.
No ar desde 2003, a Rádio Estudantil é o espaço da comunicação entre os estudantes. É através dos Programas de Rádio que os alunos orientam os próprios colegas na conservação, manutenção da limpeza, cuidados com os equipamentos e a edificação da escola, valorização e respeito pelo colega e pelo corpo docente e funcionários da instituição. A programação, elaborada pelos professores, mescla músicas de qualidade, geralmente de cantores desconhecidos pelos alunos, recados, curiosidades e serviços de utilidade pública. A cada dia, um grupo de três a quatro alunos responsabiliza-se por cuidar da parte técnica e locução, além de, eventualmente, selecionar os CDs dentre os sugeridos pelos professores. ''Inicialmente sentia vergonha de falar ao microfone. Agora estou mais à vontade, além de saber manipular a mesa de som'', afirma Thiago de Oliveira Bergaminho, 16 anos.
A diretora ressalta que a maioria dos professores monitora as atividades dos alunos durante o intervalo, promovendo maior interação entre as partes e desenvolvendo a sociabilidade. ''A partir do momento em que o professor conhece a vida do aluno começa a compreender o comportamento dele na escola'', constata. ''Muitos alunos aproveitam a proximidade com o professor para sanar dúvidas que não puderam ser trabalhadas em sala de aula'', conta a professora de Língua Portuguesa Edna Mariucio Aranha. Eliane acrescenta que por meio das atividades do projeto os professores trabalham com os alunos boas maneiras, respeito, disciplina, socialização, cuidado com o patrimônio público, meio ambiente, direitos e deveres, moral, justiça e limites.
Mesmo enfrentando revezes - a escola não aplicou o projeto nos anos de 2006 e 2007 porque o Núcleo Regional de Educação de Maringá, no qual o colégio é jurisdicionado, tentou vetá-lo e suspender a diretora e o vice alegando problemas regimentais - não cumprimento das 800 horas-aula. Com o apoio da comunidade escolar, o projeto foi parar no Conselho Estadual de Educação, que o elogiou e arquivou o processo -, o ''Projeto Dinâmico de Educação'' apresenta resultados satisfatórios.
Segundo a diretora, a política do ''quebrou-consertou'', ''sujou-limpou'' reduziu as pichações e atos de vandalismo. O resultado mais visível da aplicação do projeto foi a queda drástica dos casos de violência. ''Antes do ''intervalo dinâmico'' registrávamos uma média de 12 agressões por semana. Depois de implantado o projeto a queda foi de 90%'', revela a diretora. ''Com um intervalo maior e variado os alunos têm onde extravasar a energia e as emoções'', comenta a professora de História Fátima Fernandes. ''Temos casos de alunos que foram expulsos várias vezes, e, a partir do momento que começaram a monitorar as atividades, se tranformaram, pois passaram a se sentir 'gente' ao serem respeitados pelos colegas'', observa a professora de Educação Física Lurdes Forestieri.
Os alunos são unânimes ao afirmar que o intervalo maior e variado de atividades diminuiu as brigas e aumentou a disposição para estudar. Magno Francisco Floriano Junior, 15 anos, aponta que antes da aplicação do projeto os alunos não eram tão engajados nas atividades escolares. ''Agora todos estão mais comprometidos porque sabemos que se formos mais atuantes e educados teremos o benefício do intervalo dinâmico. ''Com o projeto melhorou a interação professor-aluno e as brigas diminuíram'', afirma Marina Bispo, 13 anos. Para Luiz Gustavo Nardoni Martins, 14 anos, o tempo do intervalo dinâmico é ''até demais''. Por outro lado, ressalta, por ser único entre as escolas de Sarandi, atrai outros alunos. ''Durante o recreio os alunos jogam, se divertem, e não têm mais tempo de brigar'', constata.


