POR UM MUSEU MAIS DINÂMICO
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segunda-feira, 30 de julho de 2001
Nelson Sato De Londrina 
O Museu de Arte de Londrina não vai ser o mesmo depois de agosto. Um pacote de inovações está sendo fechado pela Secretaria Municipal de Cultura e deverá ser desembrulhado nos próximos dias para a comunidade. A idéia é transformá-lo num centro cultural dinâmico, vivo, de interação com outras edificações públicas da cidade.
Entre as novidades previstas consta uma mudança na própria programação do Museu, que passaria a realizar eventos não habituais a seus propósitos originais. Para inaugurar a nova fase, cogita-se a realização no local da tradicional Semana Nordestina, cujas barracas seriam instaladas sob os arcos do prédio.
Ainda estamos preparando a programação. Mas podemos adiantar que uma das atrações será uma exposição em homenagem à arquiteta e antropóloga Lina Bo Bardi diz Sandra Jóia, diretora do Patrimônio Artístico, Histórico e Cultural da Secretaria de Cultura. Serão realizadas também uma oficina de xilogravura e uma mostra de literatura de cordel, entre outras atividades.
Com as mudanças especuladas, o Museu de Arte pode estar se despedindo de sua funcionalidade original. O prédio, projetado pelo arquiteto Vilanova Artigas, foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico em setembro de 1974 quando ainda abrigava a Estação Rodoviária. Trocou oficialmente de perfil por Decreto Municipal em maio de 1993.
A partir de 1997, suas instalações começaram a ser adaptadas para a nova função com a ajuda da Sociedade dos Amigos do Museu de Arte de Londrina (Samalon), a qual coube angariar os recursos para a adequação do edifício e aquisição do acervo inicial de obras artísticas.
No ano seguinte, a reinauguração foi comemorada com a apresentação de obras de, entre outros, Siron Franco, Aldemir Martins, Carlos Scliar, Gilberto Salvador, Ivald Granato e Newton Mesquita. De lá para cá, no entanto, não foram poucas as críticas lançadas contra o acervo e contra a própria administração do espaço.
O Museu está entregue às moscas era o que mais se ouvia, com o agravante de suas portas serem fechadas à visitação nos finais de semana, o que só seria corrigido nesta temporada com abertura aos sábados das 8 às 13 horas e aos domingos das 10 às 15 horas. Os boatos sobre eventuais mudanças no Museu vinham sendo alimentados desde o começo desse ano, não raro suscitando controvérsias no meio cultural.
A chefe da Divisão de Artes Plásticas da UEL, Maria Carla de Araújo Moreira, não vê a hora de uma transformação. O Museu até agora não estava cumprindo sua função diz ela.Um museu deve ser um dinamizador cultural e não um depositário de trabalhos discutíveis. O acervo é um equívoco em quase sua totalidade, o que acaba prestando um desserviço à comunidade, já que prejudica inclusive iniciativas louváveis como as atividades das monitorias. Os estudantes vão lá e vêem pinturas de baixa qualidade. O que podem aprender com isso?, complementa.
A presidente da Sociedade dos Amigos do Museu de Arte de Londrina (Samalon), Beatriz Garcia Cid, discorda. Não consigo entender esse tipo de crítica. Além do acervo possuir obras expressivas, há também uma ótima biblioteca de arte ali que é muito consultada diz. Segundo ela, muitas queixas partem de artistas inconformados com a diretriz adotada pela direção, quando esta seria legitimada pelas instituições museológicas do mundo inteiro.
Os artistas querem expor seus trabalhos no Museu, o que seria uma confusão de finalidades. Museu não é galeria. Não é lugar para montar exposições, fazer vernissages e comercializar suas obras. Em Londrina, há vários espaços para isso explica ela. O pintor Carlos Vinícius Sato propõe justamente uma circulação de obras de artistas londrinenses nas paredes do Museu, que, segundo ele, tornou-se um espaço elitizado.
Acho importante que mostrem obras de artistas de renome nacional. Mas acho também que a população precisa ver o que os artistas locais estão produzindo, precisa estar integrada junto a eles. O Museu seria um local ideal para proporcionar esse diálogo, estreitando a distância entre a criação artística e o público diz.
Paulo Menten também é favorável à idéia de abrir o Museu para a produção local. Ele propõe a criação de um acervo representativo de artistas da região como uma forma de combater a homogeneização cultural. A globalização está massacrando as manifestações regionais. Temos que ter um perfil próprio, ser interatuantes e não meros reflexos argumenta.
Carla de Araújo é contrária a qualquer proposta de viés bairrista. Um museu deve servir à comunidade e não a jogos de interesses de um determinado grupo que queira transformá-lo em plataforma de lançamento de artistas locais. Espero que esse tema seja amplamente discutido, no caso de alguma mudança futura na orientação do Museu adverte.
Para o artista Cláudio Garcia, que também questiona a qualidade do acervo, o espaço deveria ampliar suas atividades: O Museu é uma instituição fechada para a maioria das pessoas, apesar de estar localizado na área central, num ponto maravilhoso da cidade. É um desperdício. Entre as obras, há meia dúzia de pinturas relevantes e o restante não tem ressonância alguma. Faltam critérios e também idéias para movimentar seu espaço. Por que não realizar oficinas e cursos? O Museu perde em não incluir práticas educativas entre suas atividades.
A pedido do Secretário Municipal de Cultura, uma comissão provisória integrada por artistas vem se reunindo há dois meses para formular o novo funcionamento do Museu. O chefe da Pasta, Bernardo Pellegrini, não quis antecipar as novidades. Mas disse que vai anunciar as medidas em, no máximo, uma semana.


