Por um fio
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Márcio Maio TV Press 
Discutir a morte na televisão poderia ser algo desconfortável para Carmo Dalla Vecchia. Mas o intérprete do enfermo Alcino de Cama de Gato prefere inverter a situação e tirar de um assunto triste o que de melhor há para ser valorizado. Um cara que sabe que vai morrer pode fazer tudo o que sempre quis, mas não teve coragem. Ou aproveitar seus últimos dias para deixar algo de bom a quem ama. Como a novela discute o resgate de valores, o Alcino foi desenhado nessa segunda ideia, explica o ator, que é budista há 12 anos e garante ter recorrido aos próprios valores religiosos para construir o personagem.
Em alta na Globo desde que se destacou na pele do misterioso Luciano de Cobras & Lagartos, em 2006, e do jornalista Zé Bob, de A Favorita, em 2008, Carmo faz questão de frisar que não se deixa levar pelo sucesso. Na verdade, nem chega a pensar nisso. Talvez esse seja o motivo para não abraçar o rótulo de galã às vésperas de completar 40 anos. Cada um tem o seu barato. O meu é pesquisar, fazer laboratório e atuar. Dei sorte por pegar papéis que deram certo em novelas bem escritas, analisa Carmo, que já fez novelas na Record, na Band e no SBT em seus 15 anos de carreira.
Interpretar um personagem tão próximo da morte e com seu final já decretado assustou você?
Esse é um assunto complicado e sobre o qual as pessoas não gostam de falar. Exatamente por isso, ele ganha um peso enorme na trama. Não fico nessa expectativa de saber em que momento ele vai morrer, como vai ser feito. Só penso que ele tem de morrer.
Como você se preparou para o papel?
O que mais me ajudou foi a minha prática religiosa. Sigo o budismo de Nichiren Daishonin há 12 anos e a relação do Alcino com a morte tem muito a ver com o budismo. Ele descobre a doença e decide que quer fazer a diferença na vida. A amizade é um dos mais belos princípios humanos e o Alcino escolhe transformar a vida do Gustavo, melhor amigo dele. E teve um livro que eu li, Por um Fio, do Drauzio Varella, que fala de pacientes terminais, que ajudou bastante.
O Alcino tem uma carga dramática mais intensa que seus últimos papéis na televisão. Isso incomoda você?
Que nada, adoro fazer drama! Não tenho vergonha de sofrer. Existe uma teoria de que o homem não expõe suas dores, mas não tenho isso. É claro que, às vezes, quando faço muitas cenas pesadas seguidas, saio com uma dorzinha de cabeça. Mas é bom fazer um personagem e sentir que você entrou um pouco no fluxo daquela energia da história que você está contando.
Como o público reage?
As pessoas entram na onda e se emocionam mesmo. O que mais ouço são perguntas sobre se ele vai morrer mesmo, quando vai ser, essas coisas. E também vários pedidos para que o Alcino se cure. Mas aí explico que ele tem de morrer, que a vida é assim mesmo.
Seu reconhecimento na televisão só veio em 2006, com Cobras & Lagartos. Você se surpreendeu?
Pode parecer mentira, mas essa questão de sucesso não mexe comigo. Não busco a fama, as capas de revistas, nada disso. Quando você faz um personagem e ele dá muito certo, automaticamente as pessoas querem você para outro papel. Você é o seu último trabalho. Pelo menos até ter uma carreira longa, um nome. Mas para quem é um novato. Você se considera um novato?
Não sou novato, mas sei que ainda dependo que as coisas que eu faça deem certo. Situação bem diferente da que atores como Antônio Fagundes, Glória Pires e Tony Ramos, por exemplo, passam. E funcionar ou não funcionar mexe com várias questões, não necessariamente só com o talento do ator. A base para que algo dê certo na teledramaturgia é o texto. Já vi atores geniais em textos ruins que desapareceram nas novelas, assim como também já vi gente que não era tão boa com um texto excelente e passando batido, sem se comprometer.


