O jornalista Simon Khoury está lançando os dois primeiros volumes da série ‘‘Teatro Brasileiro – Bastidores’’ contendo entrevistas de fôlego que devassam o teatro brasileiro
A grade de programação do Filo já está fechada com cadeado. Mas bem que os organizadores poderiam abrir uma concessão na agenda para o lançamento dos livros da série ‘‘Teatro Brasileiro – Bastidores’’, cujos dois primeiros títulos acabam de pular dos fornos.
A série, assinada pelo jornalista Simon Khoury, reúne longas entrevistas com celebridades nacionais do palco. Cada edição traz quatro artistas. O projeto é bancado pela editora Letras & Expressões em parceria com a produtora Montenegro e Raman e patrocínio da Brasil Telecom.
O primeiro título traz os depoimentos de Paulo Autran, Eva Todor, Milton Moraes e Vanda Lacerda. O segundo dá voz a Dercy Gonçalves, Rubens Corrêa, Suely Franco e Renato Borghi. O terceiro, prestes a chegar ao público, contempla Jorge Dória, Madame Morineau, Nicette Bruno e Edwin Luisi.
Ao todo, serão 10 volumes. Numa segunda etapa, estão previstas as coleções ‘‘Autores e Diretores’’ e ‘‘Teatros do Brasil’’. Todas as entrevistas mereceriam um livro à parte, tal a profundidade e profusão de questões levantadas ao longo de mais de 100 páginas dedicadas a cada uma.
Simon Khoury é competente inquiridor. Extrai histórias, opiniões, confissões e revelações compondo exaustivos perfis dos atores, além de pintar um painel do ofício de representar e paralelamemte traçar um panorama do teatro brasileiro a partir de quem o fez. Mais do que um trabalho de pesquisa, a série constitui um registro autêntico de quem viveu todas as transformações da arte do tablado.
‘‘O que caracteriza todos os movimentos importantes de nosso teatro é uma determinada união, um fechamento em torno de uma paixão, de uma fé, de uma idéia ou de uma pessoa’’ – diz Paulo Autran, na entrevista que abre a série. ‘‘No TBC, por exemplo, aquele elenco trabalhava em uníssono em torno de um ideal de fazer um bom teatro, mostrar um perfeito espetáculo teatral; em torno do Arena era a fé total na função política do teatro, em denunciar a realidade brasileira; no Oficina era a paixão pelas idéias de um homem. O José Celso Martinez tinha um poder de aglutinação fora do comum, tinha uma personalidade marcante e tudo girava em torno de sua vontade, de sua inteligência, em suma, em torno de um homem só. No mundo inteiro, é assim’’.
As entrevistas fogem completamente da tônica circunstancial, refém do imediato, que caracteriza a imprensa diária. Khoury disseca com rara perspicácia a vida pessoal e profissional dos atores e atrizes. Alguns depoimentos rendem frases impagáveis. ‘‘Eu invento a vida e deixo a literatura para os intelectuais!’’ – diz a sempre desbocada Dercy Gonçalves, a primeira entrevistada no segundo volume.
Ela começa o diálogo desancando os jornalistas (‘‘me tratam com deferência e depois publicam tudo errado me botando no rabo direitinho!’’) e poucas linhas depois dispara desaforos contra astros de TV (‘‘Eles acreditam que são bons, só porque são bonitos. Aí vão se meter a fazer teatro e dão com os burros n’água. A Regina Duarte, coitada, foi querer se meter a fazer uma revista lá na Praça Tiradentes, e se fodeu todinha. E essa Regina Casé aí é muito repetitiva!’’).
Há passagens emocionantes, como quando Rubens Correa admite ser portador do vírus da Aids (dois meses antes de morrer), ou quando Vanda Lacerda nomeia um a um os nomes das pessoas que ela considera mau-caráter no teatro brasileiro. Simon Khoury, considerado por Sábato Magaldi como o nosso ‘‘mais arguto repórter de teatro’’, começou a coletar depoimentos quando trabalhava em rádio em 1968.
De lá para cá, reuniu 602 entrevistas com artistas das mais variadas vertentes artísticas, até que um dia decidiu selecionar as que se referiam ao teatro para publicar um livro em que contaria a história do teatro brasileiro através de seus ícones. Realizou mais 14 horas de entrevistas com cada um dos atores, o que resultou num material inédito, recheado de peculiaridades e surpresas.
Em 1983, ele selecionou pela primeira vez 14 destas entrevistas publicando os dois volumes de ‘‘Atrás da Máscara’’, pela editora Civilização Brasileira. Com a retomada do projeto agora, os leitores voltam a ter acesso – como escreve o Secretário de Cultura do Rio de Janeiro, Arthur da Távola, no prefácio – ‘‘à expectativa da estréia, ao texto decorado, às marcações de palco, ao jogo de cena, à postura, ao gesto, ao olhar, à grandeza da coadjuvância, aos limites do corpo, ao olho no olho com o público, à sinergia, à exaustão dos ensaios, às exposições de sentimentos, ao reconhecimento, ao aplauso’’. Os livros têm pouco mais de 500 páginas. Cada título custa R$ 32,00.
•Os dois primeiros volumes da série ‘‘Teatro Brasileiro – Bastidores’’ podem ser adquiridos através da Editora Letras & Expressões pelos telefones (21) 541-7672 e 527-0444

mockup