Por trás dos palcos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de maio de 1997
Ranulfo Pedreiro 
Fernando Jacon supervisiona a chegada dos equipamentos: só o Que-Cir-Que traz 25 toneladas de carga para montar o espetáculoOs cabos de aço esticam-se enquanto o ronco dos motores dos guindastes aumenta de volume. Por um instante, todo o circo fica suspenso. Trata-se, na verdade, de um circo enlatado. Lona, arquibancadas e todo o equipamento necessário para montagem e execução de um espetáculo circense estão acondicionados em um contêiner que fica por alguns minutos pendurado, até que o caminhão que o transportava se retire debaixo dele.
Os funcionários que comandam a operação dialogam num código restrito. São expressões simples mas que coordenam o desembarque da carga: mais um pouco, cuidado, devagar. Mas enquanto estava em ascensão o contêiner apresentou um balanço que preocupou Ueli Hirzel, uma espécie de diretor administrativo do circo que está se instalando na cidade. Ao perceber o balanço - que não chegou a ameaçar a operação -, o próprio Hirzel incumbiu-se de ajudar a segurar o contêiner.
Mais algumas ordens e a operação está concluída: as 25 toneladas tocam o solo em segurança. O grupo francês Que-Cir-Que está finalmente em Londrina para participar do Festival Internacional - Filo. O contêiner de 40 pés e duas portas laterais adaptado especialmente para acomodar o circo estava em Campinas, onde o grupo se apresentava. De lá até Londrina a carga foi transportada por caminhão.
Circle Eles viajavam pela América Latina e aceitaram nosso convite para participar do evento. Este contêiner traz todo o equipamento de um picadeiro com espaço para 500 pessoas, ou seja, 95% do circo está aí dentro, comenta Fernando Jacon, diretor técnico do Filo.
O Que-Cir-Que estréia o espetáculo Circle no dia 30, e está alojado num terreno próximo à Biblioteca Central do campus da Universidade Estadual de Londrina. O grupo mistura técnicas de expressão corporal com show circense, adaptando experiências acumuladas durante sua estadia pela América do Sul.
A chegada do material do Que-Cir-Que a Londrina revela um lado pouco conhecido do Festival: não é nada fácil arranjar transporte e atender às exigências de 20 grupos de 12 países. O transporte até que não dá tantos problemas. Às vezes acontece da carga vir de navio, que é demorado. Aí depende da disponibilidade do grupo em passar todos esses dias sem se apresentar, explica Fernando Jacon.
A carga do canadense Carbone 14, por exemplo, veio para o Brasil de navio, alojada em dois contêineres - um de 40 e outro de 20 pés. Por sorte o governo canadense apóia o grupo e torna viável o deslocamento, caso contrário não teríamos condições de trazê-los. Uma viagem de contêiner em navio deve sair em torno de US$ 15 mil, mas este não é um valor exato, é um cálculo aproximado, pois o grupo viaja com certa frequência e obtém uma série de descontos, observa Jacon. De Londrina, o equipamento do grupo se deslocará para Tel Aviv de avião.
Além da carga, algumas exigências se transformam em verdadeiras dores-de-cabeça. O elenco do Que-Cir-Que, por exemplo, prefere se alojar em trailers , para ficar perto do picadeiro. Para cumprir o pedido, a direção do Festival teve que pesquisar preços na região de São Paulo para tentar alugar seis trailers .
Outra dificuldade da organização é conseguir um ambiente com uma porta de banheiro que tenha 1,5 metro de largura. Para complicar ainda mais, a porta tem que dar para um ambiente onde caibam no mínimo 50 pessoas, que vão compor o público do espetáculo Hamlet 1, do Corporacion Estudio Teatro, da Colômbia.
O Zotal Teatre, da Espanha, pediu nada menos do que 180 colheres de sopa. Tudo isso porque a peça Zigurat segue a tendência do teatro gastronômico. O ator Manuel Trias interpreta e cozinha ao mesmo tempo. O espetáculo termina com um prato suculento que será degustado pelo público.
Na lista dos pedidos esquisitos constam ainda um licor caseiro com rótulo, oito sacos de lona ou material similar para acomodar areia, um fogão industrial de uma boca, cinco peixes ornamentais e um cacto de um metro de altura plantado em um vaso. Depois de tantas exigências, a torcida agora é para que o público prestigie o evento - que começa no dia 27 - comparecendo aos espetáculos.


