São Paulo - Matteo Garrone arrepende-se por não haver lançado "Reality - A Grande Ilusão" na Itália imediatamente após o prêmio que o filme recebeu no Festival de Cannes do ano passado. Ele preferiu esperar - quatro meses - achando que teria mais tempo de preparar o lançamento. Surpreendeu-o a má acolhida da crítica e do público, o reverso de seu longa anterior, que havia sido um grande sucesso. "Os críticos escreveram que era um filme sobre o Gran Fratello (o BBB da Itália) e transferiram seu ódio do programa para o filme. O público, que ama o Fratello, não se interessou pelo que estava sendo vendido como uma obra de denúncia social. Fiquei numa espécie de limbo. Tínhamos (os produtores e eu) uma expectativa elevada e ela, com certeza, não foi atingida."
Garrone conta essas coisas numa entrevista por telefone, da Itália. Está em casa e, ao fundo, ouvem-se todos os movimentos de uma residência. Garrone volta e meia interrompe o que está dizendo para pedir que alguém (quem?) espere. E repete a toda hora para a reportagem: 'Scusa' (Desculpe). Para ele, é importante que fique claro - "Reality" não é sobre o "Gran Fratello", como "Gomorra", baseado no livro de Roberto Saviano, não é a sobre a Camorra, a Máfia napolitana. "Tanto a Máfia como o Gran Fratello fornecem um fundo. Reality é muito mais sobre a indústria do espetáculo, sobre o culto das celebridades que se transformou num fenômeno deplorável deste nosso mundo contemporâneo. Mas, como eu digo, é só um fundo. Ambos os filmes são sobre perdedores, sobre gente que persegue sonhos e ilusões e tromba com a realidade."
Ele conta que, para fazer "Reality", se baseou num caso real, ocorrido na família da sua 'compagna'. Não se refere a ela como mulher nem esposa. É a companheira. "Um parente dela, um primo, iniciou essa viagem louca que terminou envolvendo toda a família. Não precisei fazer outra pesquisa que não construir um roteiro sobre o que todos nós acompanhamos. São histórias que me interessam. Os protagonistas de Gomorra são os soldados rasos da organização, a raia miúda. E Luciano, de Reality, é um ingênuo. Perde a própria identidade tentando realizar o sonho de virar uma celebridade. É um personagem em busca de um autor, um ser pirandelliano. Conhece Pirandello, não? Essa relação não estava na minha cabeça quando comecei a trabalhar no roteiro, mas, no limite, foi isso que ocorreu durante o processo. E Aniello Arena, que faz o papel, é extraordinário. Lamento que o filme não tenha feito mais sucesso também por ele. Aniello não é só talentoso. Como presidiário, integrante de um grupo de teatro no cárcere (em Volterra), ele sabe bem o que é perseguir um sonho e enfrentar a indiferença de um sistema que não está interessado nas pessoas."

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