Por todos os pixotes
POR TODOS
OS PIXOTES
Viúva lança livro com a verdadeira história de Fernando Ramos da Silva
Rosa Bastos
Agência Estado
Arquivo Folha
A
história de Fernando Ramos da Silva - o menino que viveu no cinema o papel de Pixote e, como no filme, acabou morto pela polícia - está sendo contada agora pela viúva dele, Cida Venâncio. É a versão dela, que foi mulher de Silva durante oito dos 23 anos que ele viveu. No livro Pixote Nunca Mais, Cida Venâncio fala de como o encontrou e como o perdeu. Quero limpar a imagem de Fernando, que não era Pixote e não merecia ter sido assassinado como foi.
Há dez anos, ele foi morto por policiais militares, em Diadema. Segundo Cida, a verdadeira história de Fernando Ramos da Silva é a mesma de milhares de brasileiros pobres. Ele lutou para ser um ator, um marido, um pai, diz ela.
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Queria livrar-se do rótulo de marginal que botaram nele e o levou à morte. Cida culpa todo mundo que rotulou Fernando de marginal e não o deixou viver em paz. Para ela, os policiais só executaram a sentença. É muito fácil para quem está do outro lado, e nunca passou fome, apontar, julgar e condenar alguém.
Pixote Nunca Mais foi lançado na 15ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que se encerrou domingo, no Expo Center Norte (leia texto abaixo).
Menina em Diadema, Cida Venâncio apaixonou-se pelo garotinho que vira no filme Pixote e era seu vizinho. Aos 13 anos, para desespero da mãe, ela foi viver com ele, então com 14. Quando o marido ainda estava vivo, fizeram um esboço do livro. Ele me contava, eu copiava, lembra. Depois, ela escreveu a história à mão, como um diário, tentando dizer tudo o que sentia. À máquina, eu comia todas as letras R e S.
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Mineira de Belo Horizonte, criada em Diadema, Cida Venâncio sempre quis ser escritora. É um dom, diz. Ela não chegou a completar a 8ª série, mas garante que o curso da vida a ensinou a escrever e a fazer muitas coisas mais.
Quando eu era pequena e vivia sonhando de olhos abertos, meu pai chamava minha atenção, dizendo que talento de empregada doméstica é uma vassoura, lembra. Hoje, ele tem de dar o braço a torcer. Os professores também não gostavam de corrigir as composições da garota, que tinham entre 30 e 40 páginas.
Aos 13 anos, ela teve publicado o seu primeiro trabalho importante. Havia vários casos de aborto na escola e, como ela levava jeito para escrever, a professora pediu um texto para botar na cabeça das meninas que é uma vida que estão tirando. Cida escreveu 68 páginas sobre o assunto. O livreto foi copiado em mimeógrafo e distribuído nas escolas da região.
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É muito fácil para quem está do outro lado, e nunca passou fome, apontar, julgar e condenar alguémAs pessoasconformam-se com a violênciaDepois, ela escreveu Eternamente Maria, sobre mulheres de Diadema em busca, como ela, de um futuro melhor. É sobre aquela mulher que chega em casa, apanha do marido e aguenta tudo calada, conta. Teria como mudar, todas têm, mas se calam. Além de redatora, ela diz que sempre foi de briga. As pessoas conformam-se com a violência, a pobreza e nem tentam mudar o mundo, diz. Sofro pelos meus amigos, meus irmãos, a família de Fernando: queria que eles não desistissem.
Há sete anos, Cida casou-se novamente e teve mais três filhos, além de Jaqueline, de 13 anos, que teve com Silva. Ela vive com o ajudante de caminhão José Rodrigues Vilela, o Nego, de 29 anos, que era seu fã, como ela foi do ator de cinema. Quando ele morreu, fiquei mal, comecei a beber, fiquei chata e violenta, conta. Um dia, minha filha chegou em casa chorando porque disseram que o pai era um marginal; decidi que era hora de arregaçar as mangas.
A família saiu da favela e mudou para Campinas, onde os filhos têm boa escola e levam uma vida razoável. Quando é convidada, ela dá palestras e também escreve novelas para a Rádio Brasil de Campinas, a partir de cartas de ouvintes que contam os seus dramas. A gente só vive no vermelho, diz.





