Por que 'Roma'?'
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
A significativa bagagem de prêmios já obtidos - e certamente outros a caminho, até um provável Oscar de melhor filme em fevereiro -, aliada ao amplo reconhecimento quase unânime da crítica internacional e ao peculiar 'modus operandi' de distribuição e exibição quase cem por cento via streaming, fizeram de "Roma" algo além de um fenômeno enquanto somente filme: aos olhos do mercado, ele assumiu a condição de "case" de marketing, revolucionando de uma vez por todas as regras para o acesso das plateias.

Nenhuma dúvida: a Netflix, plataforma provedora mundial de filmes e séries, está transformando o panorama da circulação do entretenimento audiovisual a nível planetário. E o filme de Cuarón é o exemplo mais recente e acabado, embora a líder absoluta de assinaturas até o momento não tenha divulgado o número de contas que acessaram o longa-metragem mexicano desde sua disponibilidade a partir de 14 de dezembro - o recordista do momento é o thriller distópico "Bird Box", ancorado no apelo de Sandra Bullock, com a impressionante cifra de 45 milhões de acessos somente na primeira semana ( a Netflix conta no momento com mais de 100 milhões de assinantes). Com absoluta certeza "Roma" não alcançará "Bird Box" , não importa a permanente coleta de prêmios na temporada. E o que infelizmente importa, também não estará no circuito de salas.
Demanda algum trabalho, identificar o tema com o qual "Roma" está moldado. Mas é uma doce demanda. A história é desfiada no passado, segundo ato de confissão do próprio Cuarón. Seu passado. Embora, em realidade, talvez seja mais apropriado localizá-la sem precisar qual o tempo. Infância e nostalgia: é disso que se trata. Infância que se converte, nas mãos do diretor, em algo como a ferramenta de um estranho adivinho. São seu corpo e seu olhar que são oferecidos em sacrifício para relatar a única história possível, talvez a história do próprio tempo. O cinema corrige o tempo. No caso de "Roma", corrige a memória e o pertencimento. Para o diretor, com certeza é o filme mais importante de toda sua carreira. E de sua vida.
Filme intimista e extremamente pessoal, o do mexicano Cuarón, que deixa para trás o inglês e a parafernália hollywoodiana dos bem sucedidos "Gravidade" e "O Prisioneiro de Azkaban", mas ainda assim contando com generoso, farto orçamento. Foi com certeza seu status de ótimo cineasta que abriu as portas para projetos arriscados como este de "Roma". A trama transcorre no bairro que dá título ao filme, na Cidade do México. Seguimos a empregada doméstica Cleodegária, a Cleo (Yalitza Aparicio), jovem de origem mixteca (secular povo indígena da região de Oaxaca, estado ao sul do país) que trabalha para uma família classe média alta no início dos anos 1970. Na casa vivem a avó, o casal e seus quatro filhos, mais dois empregados e o cão Borras.
Sofia (Marina de Tavira), a mãe dos quatro, lida com o fim do casamento (o marido está de malas prontas, rompendo de vez) enquanto Cleo, diligente e muito amorosa babá das crianças, enfrenta uma gravidez inesperada e não assumida pelo namorado. Enquanto tratam de fortalecer uma nova relação de amor e solidariedade no contexto de uma hierarquia social onde classe e raça se entrelaçam constantemente, Cleo e Sofia sofrem em silêncio para aceitar mudanças que chegam àquela casa, em um país que enfrenta a luta de um governo apoiado pela milícia e pelos protestos estudantis.
A narrativa é entregue em glorioso preto e branco - pena que a esmagadora maioria de espectadores somente aprecie esta preciosidade estética na reduzida tela que Netflix oferece, já que o filme não vai para as salas grandes -, com estupenda recriação do tempo, aqui incluídos salas de cinema da época, desfiles militares, manifestações de rua violentas de natureza política, barulhentas ruas suburbanas, idílicos banhos de mar. Tudo é encenado à perfeição, seguindo o desenho visual traçado por Cuarón, que desenvolve grande domínio de câmera (é o diretor de fotografia) e demonstra extrema sensibilidade para explicar sem palavras a espécie de cumplicidade que ocorrerá entre Cleo e a dona da casa acima de diferenças de classe - "as mulheres estão sempre sozinhas", diz Sofia. Mas afinal quem vai realmente demonstrar equilíbrio interior é Cleo.
"Roma" avança pelo olhar deste personagem condenado ao silêncio. E ao esquecimento. São séculos comprimidos de repente em alguns anos, estes que contemplam a humilhação de Cléo, a criada, a mulher indígena na qual confluem as angústias, misérias e injustiças do México e, por que não, do universo inteiro. A memória deste Alfonso Cuarón adulto, caso pressionada, acabaria recitando a estrofe de um poema de Jorge Luis Borges: "Somos nossa memória, somos esse quimérico museu de formas inconstantes, esse monte de espelhos rompidos".
Com efeito, o filme, além de belíssimo e com um elenco fantástico (a estreante Yalitza Aparicio é o destaque absoluto), é exatamente isso: versos prontos e versos ainda em construção, pedaços de um poema confundidos com a carne, uma lembrança clara e ao mesmo tempo muito vaga.


