Por que regravar ‘‘Clara Crocodilo’’?
Eu sempre quis regravar o Clara. Na época, fiz o disco com o que eu tinha à disposição. Em 1979, eu tinha participado do festival da TV Cultura e do festival da TV Tupi e o Robson Borba estava vindo a São Paulo e resolvemos encarar o projeto. Mas eu nunca pensei que fosse uma versão definitiva. Tanto que quando a gravadora Ariola me contratou, eu pensava em regravar o Clara e não lançar o Tubarões Voadores.
Por que você decidiu regravá-lo ao vivo?
Foi depois de ver o resultado do ‘‘Gigante Negão’’, que foi lançado em CD a partir de uma fita-cassete que eu nem sabia que existia. A qualidade ficou muito boa. Por isso quis fazer o mesmo com o Clara.
Você arregimentou uma orquestra para a gravação. Vai ser possível viabilizar shows pelo País com essa formação? Aliás, quantos shows você fez depois da gravação?
Fiz três shows no Sesc do Ipiranga, em São Paulo. Mas é difícil montar espetáculos com dezoito músicos no palco. Desde 94 trabalho com orquestra sinfônica e quarteto de cordas. Há alguns anos realizei um concerto para orquestra sinfônica, quarteto de cordas e banda de rock. Depois escrevi mais duas peças para dois pianos e três percussionistas. Escrevi também uma peça sinfônica para os padres jesuítas em homenagem a José de Anchieta.
No disco, a atmosfera de trilha sonora parece que ficou bem mais acentuada com os novos arranjos. Você concorda?
Na verdade, o original já tinha isso. Na época, algumas pessoas perceberam esse elemento de visualidade nas idéias musicais e me procuraram. Foi a partir dali que comecei a ser solicitado para compor para cinema. O cineasta Alain Fresnot me procurou logo depois de ouvir o disco, o Chico Botelho também.
Na nova versão, a faixa ‘‘No Cemitério’’ traz um acento bem jazzístico...
O arranjo é do Mário Campos, que é muito ligado em jazz. É a única faixa, junto com o ‘‘Aventuras no Drive-In’’ do Paulinho (Barnabé), que não assinei o arranjo.
O álbum ‘‘Clara Crocodilo’’ provocou polêmicas na época do lançamento, sendo considerado o disco mais inovador desde o movimento tropicalista. Passados quase 20 anos de distanciamento do lançamento, que avaliação você faz de toda aquela repercussão?
Não acho que o Clara influenciou a música popular. A Blitz só pegou a coisa dos vocais femininos, que o Itamar Assumpção também fazia. Quando ouvi a Blitz a primeira vez, pensei: nossa, o Itamar está tocando no rádio! O que aconteceu foi que eu achava que o trabalho estava inserido numa perspectiva de música popular. Mas o que a gente entendia como música popular não existe mais. Perdeu-se a beleza. Hoje só existe a música de mercado. A nova versão do disco não tem nenhuma influência de música popular. É uma obra erudita, é uma das possibilidades da música erudita para o século 21.
Que impacto você acha que essa nova versão vai ter sobre os músicos pop(ulares) de hoje?
Eles vão gostar, mas vão achar erudito.
Mas Clara Crocodilo é repleto de elementos pop, histórias em quadrinhos, guitarra. Você acha, então, que a música erudita do próximo milênio vai se fundir com o pop?
Toda a minha geração foi influenciada pelo rock e pela cultura pop. Não tem como fugir disso. Isso é uma coisa de cultura americana, a Europa não tem isso. Acho que a música erudita vai ter esse lado de entretenimento também.
Por que você deixou a música ‘‘O Astronautra Perdido’’ de fora?
É que estou preparando um álbum de canções e quero incluí-la.
Um álbum de canções? Então, você não rejeita tanto o popular...
Isso se você entender como popular músicas como ‘‘Londrina’’, ‘‘Instante’’ e a própria ‘‘O Astronauta Perdido’’. Não acho que a obra de Tom Jobim, por exemplo, seja popular. Hoje em dia, suas músicas podem ser apreciadas como peças eruditas. Neste disco, vou colocar também algumas valsas. As músicas vão ter o aspecto kitsch, que é componente da canção popular, mas vão trazer uma qualidade de beleza. Vou fazer o disco com a cantora Tuca Fernandes (que já cantou no Gigante Negão e no Clara) e com o Quinteto Delas.
Você já recebeu algum convite oficial para apresentar esse novo espetáculo do Clara Crocodilo em Londrina, onde ele foi gestado?
O pensamento foi desenvolvido em Londrina, mas se eu tivesse ficado por aí nada teria acontecido. O Paraná não dá suporte para artistas locais. Dá suporte para os artistas do Rio, da Rede Globo. Sou muito grato a São Paulo por isso. Eu me considero paulistano.

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