Por que não aqui?
Airto Moreira é sucesso no exterior e tratado como desconhecido em Cu ritiba onde não consegue fazer shows como gostaria
Zeca Corrêa Leite
Alessandra HaroO músico Airto Moreira de passagem por Curitiba apenas para descansar e rever amigos e familiaresSanto de casa não faz milagre. O percussionista Airto Moreira, que há 32 anos mora nos Estados Unidos, e lá construiu uma sólida carreira musical, ao lado da mulher Flora Purim, esteve há poucos dias se apresentando em São Paulo, no encontro promovido pelo Sesc, ‘‘Percussões do Brasil’’. Dali para Curitiba, foi um pulo, mas só para visitar a família e os amigos. Nem mesmo ele sabe quantos anos não sobe a um palco curitibano.
‘‘Aqui é difícil, né?’’, constata entre cansado e irônico, numa crítica velada. ‘‘São Paulo é São Paulo: tem verba para as coisas, as pessoas estão mais interessadas, principalmente o pessoal que tem poder de fazer as coisas acontecerem. Curitiba é meio parada para as artes em geral’’.
Airto é da opinião que haveria muito mais movimento na área musical, por exemplo, se empresários e governo apostassem em projetos que colocassem lado a lado profissionais vindos de fora, com os locais. Isso não acontece, da mesma forma como as portas não se abrem para ele e suas propostas de intercâmbio. ‘‘Já faz uns três anos que estou tentando e não consigo’’, lamenta.
O problema não é exclusivo dele, mas da cidade. Seu palpite é de que ‘‘antigamente aconteciam mais coisas aqui do que agora’’. Essa visão é sustentada principalmente nas turnês dos amigos que tem no exterior. Anos passados, Curitiba era ponto obrigatório para os shows; mas há algum tempo deixou de ser. ‘‘Não sei o que se passou’’, diz o músico, sem arriscar uma explicação.
IlusãoJá a música brasileira, apesar da moda brega, continua sendo tão boa como sempre foi, afirma. Airto Moreira esteve nos agitados e sempre lembrados festivais da TV Record, antes de tomar o avião para a América do Norte. ‘‘Mesmo quando a MPB está pobre, ainda assim está tão boa quanto o melhor que se faz lá fora’’.
O percussionista conhece a fundo o meio musical americano, e dá um recado para aqueles que querem trocar o Brasil pelos Estados Unidos. Tudo não passa de ilusão. ‘‘O pessoal acha que lá fora é melhor. Não é melhor. Se você trabalhar aqui no Brasil o tanto que se trabalha lá fora, você consegue alguma coisa também aqui’’.
‘‘Você vai aos Estados Unidos, e todo mundo fica bobo com o que você está fazendo. Não é mais assim, a coisa mudou muito. Tem muita gente de fora; em Nova York estão milhares de brasileiros, muitos com diplomas universitários. São médicos, dentistas, advogados que trabalham em restaurantes servindo mesas’’.
ProdutorCatarinense que tocou muito na noite da cidade, antes de tomar o rumo de São Paulo e de lá para os States, Airto Moreira é um nome internacional. Além dos Estados Unidos, conquistou espaço na Europa e Ásia. Há cerca de cinco anos, vem atuando também como produtor de discos e vídeos para a gravadora londrina, Melt 2000.
Para esse selo, Flora Purim está gravando um CD somente com músicas de Milton Nascimento. O lançamento está previsto para sair ainda este ano. O projeto não é recente, mas sobre ele Airto não se estende. ‘‘É um trabalho da Flora, não é meu’’.
Mas ele também está se preparando para o lançamento de um novo disco. ‘‘Homelles’’ estará em agosto nas lojas americanas e européias. No Brasil deverá chegar no final do ano ou após o carnaval de 2000. O músico faz questão de dizer que o título do CD em nada se relaciona com os sem terra brasileiros. ‘‘Não gosto do Movimento dos Sem Terra. Acho que todo mundo tem que trabalhar. Se não tem terra, dê um jeito de alugar e pronto’’. Voltando ao disco, ‘‘Homelles’’ (sem teto) tem amplidão maior. Refere-se aos sem lares de todo o mundo: ‘‘Tem muita gente fugindo das guerras’’. O disco traz composições suas, da filha Diana Moreira, e ‘‘Ginga Sem Fronteiras’’, poema musicado pelo compositor curitibano Hilton Barcelos.
A produção não é essencialmente instrumental. Diana canta uma faixa em português e três em inglês. Airto Moreira interpreta duas canções em português. ‘‘Sempre cantei. Até que fui para São Paulo e passei a me dedicar à bateria, porque era difícil homem cantar nas boates’’. Flora participa de uma faixa, fazendo back-ground’’.
Airto este ano passado em Recife, especialmente para levantar material para a gravadora Melt 2000. Produziu quatro bandas: as do Mestre Salustiano, músico de quase 70 anos, tocador de rabeca; ‘‘Maracatu Nação Er꒒, formada por meninos carentes do bairro Brasília Teimosa; Tavares da Gaita, de 76 anos, que toca gaita de boca, e a Banda Cultural de Pífaros de Caruaru.
RemixO percussionista diverte-se contando que faz a garotada se agitar nas pistas de dança. Sua música ‘‘Tombo’’, gravada anos atrás no Brasil pela Warner, foi regravada recentemente, e batizada de ‘‘Celebration Sweet’’.
Dois DJs alemães - The Bellini Brothers - fizeram um remix da canção e o resultado foi o estouro por toda a Europa. Na época da Copa do Mundo ela foi uma das escolhidas oficialmente pelos organizadores.
Conhecida como ‘‘Samba de Janeiro’’, está em compilações, mesmo aqui no Brasil. Até agora foram vendidas 850 mil cópias, com distribuição nos Estados Unidos pela Virgin Records. ‘‘Aqui no Brasil vi dois CDs com minha música. Continuo a fazer o povo dançar e recebo meus direitos, né?’’

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