Thales de Menezes
Agência Folha
Muitas coisas podem motivar alguém a ir aos shows dos Rolling Stones no Brasil. Em primeiro lugar, a curiosidade. Da parte dos jovens, que desejam descobrir o que fez da banda o maior nome do rock’n’roll de todos os tempos. E dos veteranos, que querem saber se o grupo ainda honra a fama. Outro chamariz é o repertório. Ninguém no cenário pop consegue enfileirar tantos sucessos, atravessando gerações roqueiras. Sem exagero, os Stones podem dar um show com 25 canções e fazer o público cantar junto todos os números. Alguém mais se habilita?
Mais uma atração: o palco e toda a parafernália de cena. Quem viu o grupo no Brasil em 1995 ainda tem na memória as luzes, os fogos, os bonecos gigantes, as telas de alta-definição... Enfim, coisas que fazem do telão da turnê do U2 simples brincadeira de nerds.
No entanto, o motivo mais forte talvez seja o respeito e sua consequente veneração. Qualquer pessoa ocidental e urbana com menos de 50 anos deve saber que os Stones influenciaram, muito ou pouco, o seu jeito de ser. A banda não foi geradora de grandes mudanças musicais e sociais, tarefas que acabaram nas mãos de Elvis, Beatles, Dylan, Sex Pistols e outros, mas coube a ela sustentar muitas bandeiras da revolução cultural das últimas décadas. Ou seja, dar a cara para bater.
Acusados de imitadores baratos dos Beatles, perseguidos pela polícia, bodes expiatórios da repressão às drogas, marcados pela morte patética de um membro da banda (o guitarrista Brian Jones, encontrado drogado e afogado na piscina de sua mansão em 1969), vítimas do fisco britânico, alvo de paparazzi, saco de pancadas do movimento punk, chamados de caducos pelos roqueiros de bermudão dos anos 90... Tudo de ruim que existe no pop já aconteceu com os Stones.
Mas a banda sobrevive, liderada pelas figuras mais emblemáticas do rock. Os Stones são Jagger e Richards. O resto é mera figuração. Tudo bem, Charlie Watts é carismático, em seu eterno jeito blasé, mas ele mesmo já declarou a grande distância que mantém do arquétipo do rock star. ‘‘Como é ser um Stone? Não tenho a mínima idéia. Pergunte a Keith’’, disse o baterista nos anos 70.
O baixista Bill Wyman reafirmou sua condição de subalterno ranzinza do grupo ao abandonar a trupe. Mick Taylor, guitarrista entre 1969 e 1974, nunca se adaptou totalmente aos Stones. Seu substituto, o boa-praça Ron Wood, confirma sua vocação de coadjuvante e suas limitações como guitarrista. Conformado em ser um clone de Richards, gosta do jet set e adora festas e bebida. Está em casa.
O brilho maior fica mesmo com Jagger e Richards, a parceria mais duradoura da cultura jovem. São completamente diferentes um do outro, mas feitos do mesmo substrato: drogas, sexo e rock’n’roll. As diferenças na dosagem dos ingredientes é que faz a diferença.
Mick Jagger, o cantor dos lábios de borracha, é um competentíssimo homem de negócios, capaz de encarar reuniões com os executivos de gravadora com a mesma desenvoltura que demonstra diante de platéias de 80 mil pessoas. Já Keith Richards é a própria encarnação do rock. O corpo magrelo curvado sobre a guitarra e envolto na fumaça do indefectível cigarro representa o sonho adolescente em qualquer canto do planeta. Richards é um ser mítico, a mistura delicada de nobreza e decadência, anjo caído que não acha o inferno um lugar tão mau quanto parece.
Jagger pode ser o playboy, o roqueiro das colunas sociais, o bon vivant cercado de filhos e netos, um líder irretocável na hora de defender os
interesses empresariais dos integrantes do grupo.
Richards é a alma dos Stones, a locomotiva do maior trem do rock. Quando chega a hora de ir para a estrada, é ele que consegue convencer os outros a topar a empreitada, é ele que faz cada um dar o máximo. Toda a motivação que faz um bando de senhores cinquentões e milionários incendiar fãs adolescentes está na alma desse guitarrista de rosto sulcado, sobrevivente de décadas de música e drogas. Quando o público brasileiro ficar extasiado com a presença dos Stones no palco, estejam eles em noite inspirada ou não, deve endereçar toda a sua gratidão a Jagger e Richards. Eles ainda têm paciência para mostrar a seus seguidores o significado do verso ‘It’s only rock’n’roll, but I it (É
apenas rock’n’roll, mas eu gosto).

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