Por que ir ao circo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de agosto de 1998
Estelio Feldman 
Gosto tanto de circo que nunca pensei em fazer algum tipo de comentário sobre os motivos desta preferência. A impressão que tinha é a de que o circo é o tipo de preferência universal.
Conversando com alguns colegas da Redação, para quem falava do circo que está na cidade, percebi que tem gente que não liga. Tem até quem não gosta. Foi o que me fez pensar. Conclui entre outras coisas que circo, como parque e desenho animado, são coisas que a gente só gosta se aprendeu isto na infância. Quer dizer se o pai, a mãe, o irmão mais velho gostam, levam você, estimulam, você acaba também se apaixonando.
Claro, há também outra coisa: a idade. Quando eu era criança as atrações eram poucas. Não havia TV, o cinema era longe (isto se a gente morava em São Paulo, em lugares do interior nem cinema tinha). Assim, o circo era a atração, ia a toda parte, chegava aos mais distantes buracos. Era a atração da lona, da serragem, dos bichos, das moças lindas, maravilhosas, dos jovens fortes e corajosos e dos palhaços, claro. Era, para as crianças, um encanto, a magia pura.
Daquela época, dos circos que passavam pelo alto do Ipiranga, muitos incluindo em seu repertório não só piruetas, saltos de trapézio, mágica mas também peças teatrais (como a infalível Paixão de Cristo na Semana Santa), vem o amor. Circo, para mim, é a infância de volta, sem saudosismo tolo, mas com aquela saudade das coisas mais lindas da vida.
A paixão do passado persiste no presente. A magia ainda funciona. O circo que está em Londrina já recebeu minha visita, claro, logo no domingo. Comigo foi a netinha, como já haviam ido antes os filhos, sobrinhos e netos. Fiz minha parte, eles amam o circo como eu, vão continuar a fazer parte dos que, mesmo na era da TV, filmes fantásticos, ainda gostam de ficar algumas horas debaixo da lona, vendo os artistas, se maravilhando com seu trabalho, mergulhando, por algum tempo, numa dimensão diferente, de alegria, paz e sensibilidade.
Estélio Feldman é colunista e editor de Internacional da Folha.


