Por que incentivar a produção de discos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de abril de 1997
Bernardo Pellegrini 
Londrina é um pólo de produção cultural (teatro, literatura, poesia, arquitetura, etc) e na área da música viveu dois momentos marcantes; vivemos agora uma terceira e decisiva etapa para a afirmação da cidade como produtora e não apenas consumidora de cultura.
O primeiro momento da música em Londrina foi vivido ainda nos anos 50 e início dos 60. A presença de emissoras de rádio e televisão e pleno sertão do Paraná transformava a cidade em parada obrigatória para os artistas populares que por aqui vinham divulgar os seus trabalhos. Era o tempo dos programas de auditório tanto no rádio quanto na TV, época dos shows nos cinemas e nas boates, da fervilhante boemia embalada pelo dinheiro do café. Surgem nesta época muitas duplas sertanejas que ainda hoje fazem do Norte do Paraná referência obrigatória desta modalidade musical.
Nos final dos 60 e início dos 70 surgem os festivais universitários de música, aparecem os bares com música ao vivo e os shows nos teatros e palcos estudantis. Por essa época Londrina exportou toda uma geração de compositores e intérpretes. Arrigo Barnabé, Robson Borba, Paulinho Barnabé, Neusa Pinheiro, Itamar Assumpção e Cida Moreira são nomes ligados a Londrina que promoveram a famosa Vanguarda Paulistana no início dos anos 80.
Por esse período, em Londrina, gestava silenciosamente uma verdadeira revolução tecnológica, com o surgimento dos equipamentos digitais e a democratização da produção de discos independentes, graças ao surgimento na cidade de diversos estúdios de gravação, ligados à publicidade e às igrejas midializadas. Essa estrutura favoreceu o surgimento de CDs gravados inteiramente em Londrina, já nos anos 90: Dinamite Pura, de Bernardo Pellegrini, foi o primeiro; depois vieram os discos do Chaminé Batom, de Eliane Lima, da Banda Beco e diversos sertanejos independentes. Neste terceiro momento que Londrina vive em termos de produção musical, surgem aos montes as famosas fitas demonstração, ou Fita Demo, revelando a existência de dezenas de grupos interessados em gravar, engatinhando na consolidação de um público e de um mercado.
Esta efervescência ocorre num momento de transformações históricas vitais. Em todo o mundo a indústria do entretenimento (à qual se vincula a indústria da música) caminha para se tornar talvez a mais rentável das atividades em futuro bem próximo; e no Brasil a produção musical se pluraliza e se diversifica.
Os gaúchos exportam sua música nativista ao mesmo tempo em que os baianos transformam a sua axé music em sucesso mundial, partindo sempre da criação de um mercado local e depois a expansão de suas fronteiras. Grupos da periferia de São Paulo e Rio (Mamonas Assassinas e Cidade Negra) se tornam campeões de vendas; um grupo de Manaus, o Carrapicho, vende quase dois milhões de discos na Europa em 96. Fortaleza exporta discos de forró para todo o mundo - a mesma coisa acontece com o Pernambuco e o seu movimento Mangue Beat ou Belo Horizonte e as suas bandas pop, como Skank ou Pato Fu, sem falar no Sepultura, que vive sua carreira internacional. São Luiz do Maranhão se tornou a Capital do Reggae - e até Curitiba grava e promove as suas bandas de garagem que já começam a fazer sucesso nacional.
A diluição do eixo Rio-São Paulo como centro da cultura brasileira é acompanhada de outro fenômeno: depois de um longo período de padronização no consumo e pasteurização do gosto musical, abre-se cada vez mais espaço para a diversidade, a singularidade. E nesse território, da originalidade, Londrina é e sempre foi pródiga.
Formada por mais de 40 diferentes etnias (japoneses, europeus, latinos, etc...) e por gente de todas as regiões brasileiras, o norte do Paraná é um laboratório de culturas em permanente ebulição, com um indiscutível gosto pela modernidade. Londrina possui um produto raro no panorama brasileiro: o gosto pelo sofisticado e a familiaridade com o contemporâneo. A cidade nasceu e cresceu sob o signo da velocidade, e domina desde há muito o melhor instrumento no mundo informatizado de hoje: a capacidade de selecionar e cruzar informações, instrumento que está na origem de nossa história e de nossa música também.
Acredito que essa inteligência (nosso pendor pelo contemporâneo) seja a matéria-prima de uma indústria que pode se consolidar num futuro bem próximo. A região é povoada por uma população de dois milhões de habitantes, integradas por cidades próximas, asfalto, computador, telefone, casas de shows, emissoras de rádio e televisão - tudo o que é preciso para a existência de um mercado regional de música rentável e sólido.
O primeiro passo na articulação dessa indústria é o investimento em seu principal produto - o disco. Como toda a indústria nascente, a indústria do disco precisa de fomento - a gravação de discos deve ser incentivada.


