Iara LessaCarl Jung percebeu que existem fatos que acontecem ao mesmo tempo, sem que um seja causa ou efeito do outroPOR MERO ACASO
OU COINCIDÊNCIA?
Sobrenomes: um bom
teste para a Teoria
da Sincronicidade,
de Carl Jung
Eduardo Castor Borgonovi
Agência Estado
Um dos estudos mais conhecidos e interessantes do trabalho do psicólogo suíço Carl G. Jung é o das sincronicidades. Também conhecidas como coincidências significativas, as sincronicidades são acontecimentos que ocorrem significativamente juntos, embora um não seja causa nem efeito do outro.
A Teoria da Sincronicidade contribuiu para psicologia e a própria física, pois abriu novas portas no conhecimento da relação entre acontecimentos. Jung percebeu que acontecimentos poderiam ser sincrônicos (ocorrer ao mesmo tempo) sem que necessariamente estivessem sujeitos aos princípios de causa e efeito. Até então, existiu praticamente a única percepção de que acontecimentos que ocorriam ao mesmo tempo eram sempre ou causa ou efeito do outro.
Por exemplo, se você enfia o dedo na tomada e toma um choque, tanto o ato de enfiar o dedo quanto o de levar o choque ocorrem ao mesmo tempo e o choque é efeito do ato de enfiar o dedo, que é sua causa. Ou, tomando outro exemplo, se alguém se fere e morre, o ferimento é a causa da morte, que é o seu efeito. E assim por diante. Esse modo de pensar influiu profundamente na ciência e na nossa maneira de ver a vida e o universo.
Através da observação de relatos de seus pacientes, Jung percebeu que existem fatos que acontecem ao mesmo tempo, sem que um seja causa ou efeito do outro. Essa relação entre eventos era percebida por muitos de seus pacientes, que muitas vezes tinham criado medos profundos quando percebiam que alguma espécie de acontecimento prenunciava um evento ruim. Uma de suas pacientes, por exemplo, garantia que sempre que uma determinada ave pousava no telhado de sua casa, alguém morria em sua família. E isso, constatou Jung, era verdade. Assim como eram verdadeiras as relações estabelecidas por outros pacientes, com outros eventos simultâneos.
Como isso é possível, perguntou Jung, se, por exemplo, a ave no telhado não tem nenhuma relação de causa com a morte de pessoas? A visão popular atribuía essas relações ao simples acaso. Mas Jung provou, estatisticamente, que não. Mostrou que realmente existem eventos sincrônicos, sem relação de causa e efeito entre eles. Seus estudos abriram novos horizontes na exploração da mente humana e do universo, embora ainda não tenham sido totalmente concluídos por nenhum de seus sucessores.
O importante, porém, foi a demonstração de que existem relações entre eventos na nossa vida e no universo que se relacionam de forma ainda não conhecida.
Outra importante colaboração de Jung foi a definição clara da terminologia que passou a ser usada em relação a eventos simultâneos. Coincidências são acontecimentos que ocorrem ao mesmo tempo. Porém a casualidade nem sempre está presente, nem sempre a relação entre dois acontecimentos no mesmo tempo é devida ao acaso. Ao observar esse tipo de relações em sua vida pessoal - o que já deve ter acontecido com você mais de uma vez - se quiser usar a terminologia certa diga que são coincidências, mas não acaso.
Na verdade, a grande maioria das filosofias orientais não admite sequer a existência do acaso. Para elas, tudo o que acontece em nossas vidas tem estreita relação, mesmo aqueles eventos que nós não conseguimos relacionar conscientemente. Esse pensamento começa a penetrar nossa filosofia e nossas ciências exatas, principalmente graças a contribuições da física quântica e da informática: o futuro, como um sistema virtual de computador, seria uma imensa base de dados virtual onde nosso livre-arbítrio colhe material para a construção de seus eventos.
Teríamos, assim, possibilidades infinitas de futuros diante de nós e dessa massa virtual vamos retirando material para elaborar a sequência de eventos que chamamos de presente. Desse modo, todo o nosso presente é uma teia, onde tudo se relaciona, inclusive os mínimos acontecimentos, mesmo que não tenhamos consciência disso, por não vermos relação de causa e efeito entre a maioria deles e nossos atos de vontade. E por que não vemos relações? Porque buscamos sempre relações de causa e efeito e estamos desatentos para as relações de sincronicidade. Um exemplo bastante simples é o ato de ganhar na loteria.
Do ponto de vista de causa e efeito, para ganhar ou perder na loteria, precisamos jogar. O ato de jogar é a causa necessária para o efeito de perder ou ganhar. Entretanto, quando alguém ganha, atribuímos esse fato ao acaso, à sorte (usando a palavra errada, costuma-se dizer que foi ‘‘apenas coincidência’’). Do ponto de vista das filosofias orientais, entretanto, alguma coisa foi feita por essa pessoa para estabelecer essa relação, mesmo que não se possa detectar claramente do que se trate. Do ponto de vista da sincronicidade, se uma pessoa ganha na loteria sempre que, supondo-se, veja uma pomba branca em sua mangueira, essa relação é uma relação de sincronicidade.
Nossa vida, portanto, seria uma imensa teia de sincronicidades, onde não estabelecemos relações entre eventos, mas elas sempre existem. Uma curiosa pesquisa a esse respeito está sendo feita pela revista científica inglesa NewScientist, que estimula leitores a informarem casos de sobrenomes de pessoas associadas às suas atividades. A pesquisa procura mostrar as relações apenas por curiosidade, sem nenhum objetivo científico, porém os resultados são muito interessantes.
Em York, Pennsylvânia, por exemplo, existe um coveiro que se chama Cramer J. Stiff (stiff = duro, rígido). Na Universidade do Sul da Califórnia, um ex-banqueiro e professor de negócios chama-se Bruce Money (money = dinheiro).
Entre informações enviadas pelos leitores da revista, estão também Mrs. Brushett (brush = pincel), professora de arte e Mrs. Ovens (oven = forno), professora de culinária. Na Austrália, um campeão de arco e flecha chama-se Neil Arrowsmith (arrow = flecha). Um dos professores de estudos religiosos na Universidade de Chester, Inglaterra, chama-se Christian White.
Na China, mais de 600 pacientes que fizeram cirurgias para aumentar seus pênis foram tratados pelo dr. Long. O curioso é que ele teve um assistente chamado dr. Stubbs (stub = toquinho). Em Oceola County, Flórida, existe um médico chamado dr. Gore (gore = cutelo) e em Stoke-on-Trent, Inglaterra, outro que se chama Barry Corps (corps = corpo).
Na Universidade de Tufts, um professor de medicina se chama dr. John Coffin (coffin = caixão de defunto). Na Nova Zelândia, uma empresa de seguros é presidida por James Covert (coverty = cobertura). O autor de um manual sobre construção de telescópios editado na Inglaterra chama-se nada mais nada menos que I. Glass (glass = vidro). Charles Fisher (fisher = pescador) é um famoso estudioso de vida marinha na Inglaterra. Na revista This Week há um artigo - ‘‘Orgias Alteram o Cérebro’’ - assinado por Marc Breedlove (breed = raça e love = amor).
Enquanto isso, a pesquisadora Sue Ion (ion = partícula) era indicada para o Conselho de Pesquisas Astronômicas do governo inglês. Um estudo do Instituto Espacial da Universidade do Tennessee, sobre as imagens observadas na superfície de Marte foi feito pelo dr. Horace Crater (crater = cratera). E outro, sobre coleta de amostras de água, foi feito pelo dr. F. H. Rainwater (rain = chuva e water = água).
Na Austrália, Chris Bull (bull = touro) trabalha para o Departamento de Marketing de uma empresa de laticínios. Na Universidade de Exeter, Inglaterra, professor de geologia chama-se dr. Stone (stone = pedra). Na Universidade de Vancouver, Canadá, o professor de oceanografia chama-se dr. Pond (pond = viveiro, aquário).
Existem muitos outros sobrenomes curiosamente relacionados a atividades das pessoas, levantados pela pesquisa da revista inglesa. Não existe nenhuma tabulação estatística que permita dar cunho científico a ela, nem existe nenhuma intenção de levantar esses casos como sincronicidades junguianas. De qualquer forma são interessantes - algumas até engraçadas - coincidências.

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