Ricardo Malta/divulgaçãoMaíra: estridência e salada de repertório no segundo discoA menina cresceu. Não mais é aquela pequerrucha desengonçada que há sete anos foi ao Domingão do Faustão estufar a jugular para interpretar ‘‘Como Nossos Pais’’ e que arrancou fáceis - e até merecidos - elogios do apresentador. Agora, aos 16 anos de idade, Maíra está lançando seu segundo disco - homônimo - em que canta alguns dos mais vigorosos representantes da nata da MPB. Das treze faixas, apenas três inéditas.
‘‘Maíra’’ vem com o sério propósito de tirar a impressão do disco anterior em que a cantora, sem atinar ao que fazia, cantava bobageiras para mostrar aos outros que era uma espécie de garota-prodígio. Neste novo trabalho, Maíra ainda peca pelo deslumbramento. Ou seja, a todos os instantes ela faz questão de deixar claro - e audível - que é dona de razoável extensão vocal sem atinar que para cantar bem não é necessário esbanjar agudos para impressionar.
É por esse motivo que ‘‘Maíra’’ se apresenta como um disco retilíneo que tem um certo peso por ser preenchido com composições - algumas antológicas - de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan, Fátima Guedes, Belchior, entre outros.
Fora isso, o disco não passa de um produto banal. É bem verdade que Maíra mostra garra logo na primeira faixa - a inédita ‘‘Epílogo’’, poema de Gregório de Mattos musicado pelo baiano Gerônimo. É bem verdade também que ela prende a atenção nas duas faixas seguintes - ‘‘Marginália’’ e ‘‘Viramundo’’, ambas de Gilberto Gil em parceria com, respectivamente, Torquato Neto e Capinan.
Mas é a partir da quarta faixa - Pedro Brasil, de Djavan - que Maíra começa a ficar cansativa. Eis aí um exemplo do que a estridência vocal pode fazer com uma pérola da MPB. E é a partir daí que o disco vira uma salada.
Qual razão, se não mostrar que é uma aplicada aluna de aula de canto, para a regravação de ‘‘Habanera’’ (ária de ‘‘Carmen’’, de Bizet)? E o que dizer de cançõezinhas descartáveis como a pós-brega italiana ‘‘Pane & Sale’’ e a inédita ‘‘Apê Depr꒒.
Há também o roquinho básico do Legião Urbana. Só que, por incrível que pareça, ‘‘Andréa Dória’’ soa muito mais verdadeira na voz de Maíra do que ‘‘Hora do Almoço’’ (Belchior). Claro, nem tudo é perdição no disco da garota-prodígio. Despida de deslumbramentos vocais ela canta gostoso (com direito a registros médios) a belíssima ‘‘Dor Medonha’’ (Fátima Guedes), em clima de bossa nova. É possível perceber cacoetes vocais a la Elis Regina, o que acaba passando como mera influência.
Por enquanto, Maíra não passa de uma boa promessa. E como toda boa promessa tem pela frente a missão de se aprimorar tecnicamente e buscar uma sincera identidade musical para não carregar para sempre o estigma de ser ‘‘aquela menininha’’ que um dia arrancou elogios de um gordo apresentador. Que a pressão comercial do mercado fonográfico lhe seja leve.

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