A maioria dos beats já se mandou para o andar de cima, mas sua herança transgressora continua pulsando em seguidores e simpatizantes ao redor do mundo. É o que inspira o evento ''Beat Cemitério'', organizado pelo grupo de teatro Cemitério de Automóveis e que acontece hoje a partir de 20h30 no Teatro Zaqueu de Melo em Londrina.
A noitada faz parte das comemorações dos 50 anos da Biblioteca Pública e inclui debates e leituras de textos com participação dos escritores Antonio Bivar, Reinaldo Moraes, Ademir Assunção, Nelson Capucho e Mário Bortolotto. O mesmo encontro foi realizado em Bauru, no interior de São Paulo, no ano passado.
Bortolotto é o principal animador da ''jam''. À frente do Cemitério de Automóveis, do qual é autor, ator e diretor, vem conquistando crítica e público em todo o país com suas montagens influenciadas pelo imaginário beat. O grupo é de Londrina, mas está há seis anos radicado em São Paulo. Segundo o dramaturgo, não há nada mais atual do que aquela turma de escritores que colocou uma geração inteira na estrada.
''Os beats continuam fundamentais'' diz ele. ''Eles não constituíram um movimento nem assumiram os estereótipos criados pela mídia para catalogar e vender o fenômeno, mas como um grupo que tinha idéias e visões de mundo em comum falaram de temas como liberdade, modo alternativo de vida e transgressão que hoje mais do que nunca deveriam ser retomados''.
Bortolotto não se conforma com a apatia da juventude, que adotaria um modelo de vida oposto ao que foi apregoado por Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Willian Burroughs e Cia. ''Hoje a rapaziada tem toda a liberdade para tocar nesses temas, mas prefere deixar a rebeldia de lado para seguir as convenções. São bundas-moles. Estudam para o vestibular e se acomodam cada vez mais na vida adulta. É um negócio que eu não entendo. Eles é que deveriam ser estimulados pelos beats, e não a gente, que tem mais de 30 anos'' lamenta.
No evento, os convidados da mesa e os atores do Cemitério de Automóveis irão intercalar o debate com recitais poéticos, estes inspirados nas célebres ''jazz-poetry'', sessões do final da década de 50 em que a poesia era entoada ao som do jazz moderno. A conexão ficou famosa na voz de Jack Kerouac, que assinalou na introdução do livro ''Mexico City Blues'' seu desejo de ser ''um jazz-poeta improvisando um longo blues em uma jam session''.
Foi assim que escreveu o visionário ''On The Road'', a bíblia de sua geração, quando sentou-se à maquina de escrever com um grande rolo de papel telegráfico e, como um músico de jazz, improvisou sem parar seus ''choruses'' literários. Diz a lenda que ele teria colocado ponto final no livro ao cabo de 20 dias. Mais tarde, gravaria discos acompanhados de músicos, entre os quais os saxofonistas Al Cohn e Zoot Sims.
O mesmo fez o poeta Allen Ginsberg, para quem a poesia era uma entidade sonora. Em 1990, chegou a lançar um CD com textos musicados por Bill Frisell, Mark Ribott, Steve Swallow, Arto Lindsay e outras figuras carimbadas da vanguarda novaiorquina. Antes, já havia registrado vários versos em disco, entre eles duas série de poemas de Willian Blake.
Em Londrina, as ''jams'' terão acompanhamento bluesy de uma guitarra slide e uma gaita. Serão oralizados textos de beats e de seguidores como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Gregory Corso, Charles Bukowski, Sam Shepard e Reinaldo Moraes. Este último traduziu ''Junkie'', de Willian Burroughs, e ''Mulheres'', de Bukowski, e escreveu os romances ''Tanto Faz'' e ''Abacaxi''.
Antonio Bivar, outro convidado, co-traduziu ''On The Road'' de Jack Kerouac e escreveu ''O que é Punk'', além de assinar o roteiro da ópera-punk ''Existe Alguém Mais Punk do que Eu?''. Ademir Assunção, por sua vez, é autor dos livros ''LSD NÔ'' (poesis), ''A Máquina Peluda'' (prosa poética), ''Cinemitologias'' (prosa) e ''Zona Branca'' (poesia).
Nelson Capucho, por fim, é autor dos livros de poesias ''Solta Chama'', ''Sunday Cogumelo'' e ''Vida Vadia''. Durante o encontro, todos os livros de Mário Bortolotto estarão à venda, menos o novo ''Gutemberg Blues'', que será lançado no próximo mês. O evento ''Beat Cemitério'' pertence ao projeto Cemitério em Cena, patrocinado pela Prefeitura do Município de Londrina através da Secretaria de Cultura por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

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