POR DENTRO DO PERSONAGEM
Em 1997 li a transcrição das falas gravadas de Stella. Depois visitei hospitais, conversei com médicos, enfermeiros, doentes mentais. Mas a observação maior foi dentro do Hospital de Saúde Mental do Acre, onde ao longo de sete meses acompanhei as meninas e observei como elas se relacionavam umas com as outras, com os médicos, com o espaço. Também observei loucos de rua e alguns amigos. Olhava tudo para ver o que podia tirar para o trabalho, para o cenário, para a roupa dela... Para criar a postura da Stella optei pela intuição e não fiz uma paciente encurvada, arqueada. Nunca a vi assim... Também precisei raspar o cabelo para ficar como ela na época da instituição. Mas não gosto de estar careca, acho que perdemos um pouco a identidade... Para mim, a Stella não era uma pessoa sem cura; ela ficou assim porque a vida não lhe deu opção. Negra, pobre... Ela foi enlouquecendo. Acho muito difícil falar da Stella. Não a conheci, mas ela apareceu para mim num momento em que eu tinha coisas a dizer... Stella fala em sexo, culpa, autoridades, fatores enlouquecedores fortes, que mostram como é difícil se manter sã hoje em dia.





