Por amor à arte
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de novembro de 1996
Telma Elorza 
Asper Luminis é o nome da escultura em ferro que o escultor Henrique Aragão entregou, na última segunda-feira, ao Colégio Estadual Antônio Iglesias, no Jardim Pinheiros, bairro pobre de Ibiporã. A escultura é o resultado de um trabalho desenvolvido por alunos e professores da escola que, nos últimos cinco anos, se mobilizaram para arrecadar dinheiro e comprar os cerca de 500 quilos de ferro usados na sua confecção. A iniciativa - provavelmente inédita no Brasil -, foi dos próprios alunos, com apoio da direção da escola.
Segundo Jair Salvador, 46 anos, professor de Língua Portuguesa e um dos maiores incentivadores do trabalho, a idéia de ter uma escultura de Henrique Aragão na escola surgiu durante uma das visitas periódicas ao ateliê do artista. A gente procura ampliar um pouco os horizontes culturais de nossos alunos visitando com bastante frequência as exposições que são realizadas aqui, na cidade. E, numa destas visitas, uma aluna, depois de ver as obras, perguntou ao Henrique se ele não faria um negócio destes - nesta linguagem - para a escola. E ele disse que sim, que faria de graça se nós fornecessemos o material - conta.
Condições O professor explica que foram impostas, então, algumas condições. Uma delas, feita pelo Henrique, era que os alunos acompanhassem todo processo. Outra, de nossa parte, foi que não iriamos pedir apoio oficial do Estado nem dinheiro à escola, que é um colégio pobre, de periferia e que, como toda escola de ensino público, já enfrenta muitas dificuldades para efetuar um bom trabalho - diz. Além disso, ficou acertado que não seriam feitas promoções exclusivamente para este objetivo. Não queríamos que fosse uma coisa que se conseguisse fácil. Queríamos envolver a todos, que todos participassem da conquista, que criasse até uma relação afetiva. Trocamos o imediato pelo permanente - afirma.
Foi esta postura que fez com que se passassem cinco anos até comprarem todo o material necessário. Segundo Salvador, o dinheiro usado para comprar o ferro provinha de sobras de promoções que a escola normalmente faz. Sempre fazemos algumas festas, como o Rádio-Baile, ou rifas, com objetivos variados, sejam para cobrir despesas com passeios com alunos ou festas de confraternização. O que sobrava destas promoções, a gente usava para comprar chapas de ferro - conta.
Dois nomes Segundo a professora de Matemática, Zeni Franco, todos os 700 alunos da escola dos 1º e 2º graus, nos três períodos, além dos professores, se envolveram na campanha pela obra de arte. Eles faziam cartazes, faixas, vendiam convites para nossas promoções, se envolviam para atingir os objetivos - diz. Mas, segundo Salvador, nem sempre foi fácil. Às vezes, a criançada cansava e a gente tinha que empurrar - conta. Ele não sabe dizer quanto foi gasto, no total, com as chapas de ferro mas estima que tenha sido bem mais de mil reais. Na verdade, não é muito mas para nós, que somos uma escola pobre, é um valor altíssimo - afirma.
Além de ajudar na arrecadação do dinheiro, a criançada também participou da escolha do nome da escultura. Fizemos uma listagem com os mais 600 nomes sugeridos. Aí escolhemos os 60 melhores e enviamos ao artista. Ele pegou dois nomes - sugeridos por duas alunas, uma da 5ª e outra da 6 séries - e formou Asper Luminis, que quer dizer algo como espalhar luz, fonte de luz, e que tem muito a ver com a proposta de uma escola - explica Zeni Franco.
Realização A garotada está, agora, muito entusiasmada com a obra de arte, embora não entenda muito bem seu significado. Segundo Vânia do Carmo, 13 anos, a aluna que sugeriu o nome Asper, todos estão muito contentes com a escultura. Principalmente porque nossa escola não tinha nada de diferente e é bom ter alguma coisa assim. Dá orgulho ter uma escultura desta na frente do colégio - diz, embora confesse que não sabe explicar o que a escultura significa. Não acompanhei desde o começo - justifica.
Segundo Henrique Aragão, a obra faz parte de uma série estilo minimalista em que vem trabalhando há quatro anos, onde a geometria - os círculos e as outras formas que compõem a escultura - representa a razão. Para ele, a iniciativa dos alunos e professores foi fantástica. Achei um desafio enorme, principalmente porque a escola é de uma pobreza incrível. A gente critica o ensino público mas, de repente, aparece um professor como o Jair, com uma cabeça e uma capacidade de envolvimento com as crianças fantásticas, que faz pensar que ainda vale a pena - diz.
Para o artista, entregar a escultura ao colégio foi uma grande realização pessoal. A gente ouve tanta discussão sobre a questão da arte que, no fundo, é só conversa mole, papo furado. Aí aparece esta criançada e batalha pela arte. Isto é exemplo. Isto recompensa o nosso trabalho - garante.


