Popularidade torpe
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de setembro de 2013
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Os vilões sempre tiveram função importante dentro dos folhetins. São eles que conduzem a trama e atrapalham o desfecho apaixonado do casal de protagonistas. No entanto, telenovelas recentes têm mostrado que o principal antagonista pode ir além da simples crueldade ou do drama exagerado.
Os desfechos para quem pratica vilanias podem até ser sempre os mesmos: redenção, morte, prisão ou loucura. Mas a repercussão de tipos maquiavélicos junto ao público acaba levando os autores a abusarem da criatividade entre uma maldade e outra. "O público se identifica com o vilão porque ele tem coragem de ir lá e fazer o que todo mundo gostaria. Existe um lado vil em cada um e nem por isso as pessoas agem de forma agressiva o tempo todo. Então, é possível ser engraçado, espirituoso e cometer atrocidades. Sempre coloquei ambiguidades nos vilões das minhas tramas", confessa Walcyr Carrasco, autor de "Amor à Vida".
Inicialmente, parecia que o principal vilão da atual novela das nove seria o afetado Félix, de Mateus Solano. No entanto, no decorrer dos capítulos fica evidente que o personagem é apenas um subproduto de César, de Antonio Fagundes, o pai que nunca lhe deu a devida atenção e mente por trás dos maiores segredos da trama. "Juro que eu não sabia que meu personagem seria tão do mal e tão do bem ao mesmo tempo. É um homem hipócrita, que sempre se justifica em seu moralismo", analisa Fagundes.
A impressão que se tem é de que existe um vilão para puro entretenimento, já que coube a Félix os momentos mais engraçados da trama, com direito até a bordões repetidos exaustivamente como "Eu salguei a santa ceia". E enquanto isso, paralelamente, um outro vilão, mais sisudo, faz a trama "acontecer".
A tática do "vilão substituto" de "Amor à Vida" acontece em muitas novelas. E recentemente, foi uma das alternativas para "Avenida Brasil". Na trama, Carminha, de Adriana Esteves, concentrou a novela em torno de suas maldades para depois justificá-las com histórias traumáticas de infância, tudo por conta da cabeça diabólica de seu pai, Santiago, de Juca de Oliveira. "Me surpreendi com a repercussão. Ela fazia coisas horríveis e foi abraçada pela massa. Carminha era fruto de seus traumas e era muito divertida, acho que foi isso que a aproximou do público", opina Adriana.
O mesmo esquema de dois vilões a serviço da trama ocorrerá em "Joia Rara", próxima novela das seis. Na trama de Thelma Guedes e Duca Rachid, o malvado Ernest, de José de Abreu, é o vilão por trás das maldades de seu filho bastardo, Manfred, de Carmo Dalla Vecchia, cuja a maior ambição sempre foi conquistar o carinho do pai. Segundo Duca, a alta popularidade dos que praticam a maldade dentro das tramas depende da "humanização" e da construção dos atores para terem o efeito desejado. "Ninguém é tão monocromático. Todo mundo se divide entre maldades e bondades. E é por isso que os vilões não são mais tão odiados como antigamente", acredita Duca.
Na contramão de vilões ambíguos e com posturas que refletem seus traumas, o remake de "Dona Xepa", da Record, reflete bem a função mais tradicional deste tipo de personagem dentro da trama. Rosália, de Thais Fersoza, tem sua maldade justificada apenas por sua ambição. Com poucas nuances, ela faz de tudo para ter o que quer. "Rosália é do tipo que não se arrepende. É a primeira vez que encarno alguém tão má e estou adorando. A vilania é excelente para a atuação, basta encontrar um caminho crível para isso", explica Thais.
Leia Também:
- Identidades confusas
- INSTANTÂNEAS


