Popular, mas elegante
Popular, mas elegante
Em Paixão, seu novo disco, Roberta Miranda
se reafirma como a grande dama da canção popular
Antônio Mariano Júnior
ReproduçãoRoberta Miranda: mais uma vez, investindo na faceta de intérprete
Sim, até é possível mirar uma ou outra estrela da constelação da atual música sertaneja com olhos desarmados. Roberta Miranda, por exemplo, é dona de um brilho raro pelo simples fato de se assumir uma cantora popular mas que mantém uma postura, uma dignidade musical imune aos apelos comercialescos que acometem a grande maioria dos seus coleguinhas de estilo. É certo que em seu 11º disco - Paixão - transborda, como nos anteriores, amor e desamor, um mote que Roberta explora desde que resolveu não só compor como também cantar.
Trata-se de um trabalho sem maiores consequências. Seria até óbvio não fosse mais uma vez Roberta Miranda buscar a sábia ajuda do produtor Guto Graça Melo para continuar a depuração sonora iniciada no disco anterior. Daí que Paixão ainda sopra em direção à camada mais popular de ouvinte mas chega com uma certa carga de elegância.
De sua parte, Guto foi buscar cordas em Londres para revestir algumas faixas. Obviamente não é só pelo simples fato de ter cordas que um disco fica imune a questionamento. Mas em se tratando de Roberta Miranda, tal expediente ganha sofisticação sem, no entanto, deixar de ser um disco popular, feito para tocar em rádios e vender a rodo. Mais uma vez, Roberta investe na faceta de intérprete - das 14 faixas, apenas cinco são assinadas por ela.
Paixão sai da fábrica com 200 mil cópias, o que, no decorrer do ano, deve duplicar graças à boa divulgação que Roberta vem fazendo. O disco também será lançado em Portugal, onde miss Miranda arrebata corações dos gajos.
Roberta Miranda, reconheçamos, não é dona de nenhum gogó privilegiado. Faltam-lhe agudos, resta-lhe, então, trabalhar com os registros médios. Sua carga interpretativa não é das melhores, mas é convicente. Seu grande mérito é cantar principalmente canções de desamor no melhor estilo fossa, ninguém-me-ama-ninguém-me quer.
E para quem gosta disso vai chorar como louco(a) no braço da poltrona ao ouvir regravações como Que Pena (Peninha) ou Seu Amor Ainda É Tudo (Moacir Franco). Com sua peculiar inflexão, Roberta se derrama no pout-pourri com dois sucessos do pagode pasteurizado - Tá por Fora (Lourenço-Adauto Magalha) e Absoluta (Altay Veloso). Ta-hí (Joubert de Carvalho), megassucesso de Carmen Miranda, recebeu um roupagem um tanto quanto caribenha. É...
Pelo menos dois bons destaques - o fado Olhos Castanhos (Alves Coelho Filho) e Pedacinhos (Carlos Randall) que conta com a participação das sempre dignas Irmãs Galvão. Agora, de naná mesmo é a versão que Cláudio Rabello deu a Baby Can I Hold You (de Tracy Chapman) que recebeu o singelo nome de Sempre Mais.
Enfim, Paixão não é um disco que rende muitos adjetivos. É, digamos assim, um disco de romantismo açucarado. Mas vem de Roberta Miranda. Que, no meio da mixórdia que se transformou o estilo sertanejo atual, escapa por destilar categoria e elegância próprios de grande dama da canção popular.





