Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Nove anos e sete discos depois, a cantora Cássia Eller grava seu primeiro disco com canções inéditas - ‘‘Com Você...Meu Mundo Ficaria Completo’’, em que se insinua mais à MPB
Ela diz que só agora teve tempo hábil para poder gravar seu primeiro disco com canções inéditas. É que Cássia Eller teve exato um ano para pedir - e receber - composições quentinhas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Itamar Assumpção, Luiz Melodia, Marisa Monte e Carlinhos Brown, só para citar os medalhões. E daí que em nove anos de carreira fonográfica, miss Eller faz, finalmente, o debut no mundo das músicas inéditas em ‘‘Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo’’, seu sétimo disco chega a público através da Universal.
Desta vez, a cantora não vem com a corda toda. Quer dizer, vem com cordas mas abandona - momentaneamente? - os lampejos sonoros e vocais que sempre imprimiu em seus trabalhos. Cassia está menos roqueira, entende? Mais MPB, saca? Mais na dela, mora? ‘‘Até então eu não me sentia capaz de fazer um disco mais voltado para a MPB’’ - explicou a cantora em entrevista, por telefone, à Folha2.
‘‘Com Você...’’ tem no total 11 faixas e conta com a participação - sutilíssima, por sinal - de Jussara Silveira, uma extraordinária cantora, em ‘‘Mapa do Meu Nada’’ (Carlinhos Brown). A direção musical fica por conta de Nando Reis. Que aliás, comparece no disco também como compositor - três de suas canções estão registradas. A seguir, os principais trechos da entrevista com Cássia Eller.
Só agora foi possível mesmo fazer um disco com músicas inéditas?
O fato de eu não ter conseguido fazer um disco inédito antes não foi culpa de ninguém. Foi coisa minha mesmo. Para se fazer isso é preciso de uma certa antecedência. Não dá para pedir música aos compositores com três ou seis meses antes de gravar o disco. Eu comecei a fazer isso em maio do ano passado e entreguei o disco em maio deste ano. Quer dizer, eu tive um tempo legal.
Esse disco está menos batidão, menos agressivo sonoramente. Foi intencional?
Foi intencional. Mas não foi assim: ‘‘agora vou fazer uma coisa que nunca fiz e coisa e tal’’. Foi acontecendo, foi acontecendo... Então as primeiras canções que chegaram foram as do Nando (Reis). E a coisa que eu mais abordo no disco é a coisa do casamento. Sempre gostei muito de falar sobre esse assunto. Mas eu falava de uma maneira mais agressiva como em ‘‘Rubens’’ ( NR música incluída no primeiro disco e que falava, debochadamente, de uma relação homossexual); era menos direta.
Até sua voz está menos rascante, não?
É. Eu quis equilibrar e dosar a força da minha voz. Mesmo porque a maioria das músicas são baladas, embora algumas tenham conotação de rock and roll.
Esse disco é uma paquera explícita com a MPB, certo?
Isso não é de hoje.
Mas está mais acentuado nesse disco?
Assim: eu sempre fui muito influenciada pela MPB. Mas só agora, realmente, estou me sentindo mais a vontade para fazer isso. Até então eu não me sentia capaz de fazer um disco mais voltado para a MPB. E eu gostei do resultado.
As letras falam basicamente de amor. Mas a maioria fala em algo muito mal resolvido...
Tem isso também. Mas em ‘‘Em Meu Mundo Ficaria ...’’, por exemplo, fala de uma cantada, de um cara que está querendo comer a mulher e fala que quer casar com ela, que vão ter netos e bisnetos. As músicas falam de todas as etapas de um relacionamento - o começo, o meio, das coisas boas e de outras nem tanto.
A sombra de marginal sempre a acompanhou. Você alimentou ou foram mídia e público que moldaram esse rótulo?
Rapaz, não sei... Mas eu era bem mais marginal do que hoje. Acho que foi um pouquinho de cada um.
Você está mais suave então, Cássia?
Por enquanto sim. Mas deixa eu ficar menstruada aí você vai ver.
No início da carreira algumas pessoas diziam que você era uma espécie de porta-voz dos homossexuais e isso até hoje persiste um pouco. Como você lida com isso?
É, talvez seja por causa daquela música ‘‘Rubens’’... Não foi nem imagem ou pelo meu jeito de ser; acho que mais chamou a atenção foi por causa dessa música mesmo. Mas depois neguinho começou a sacar que eu sou meio homem, meio mulher... Eu não sei como explicar isso a você. Eu gosto de saber de que qualquer tipo de pessoa gosta do meu trabalho, que vem conversar comigo sobre isso.. As pessoas podem não entender da maneira como que eu gostaria que entendessem, podem interpretar de outra forma, mas eu gosto que meu trabalho chame a atenção de uma forma ou de outra. Eu não separo homem de mulher, homossexual ou heterossexual, adolescente ou mais velho. Me interessa é que meu trabalho toque as pessoas.

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