"Pop by Gawronski" estréia em SP após temporada de sucesso no Rio
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quarta-feira, 05 de janeiro de 2000
Por Ricardo de Souza 
São Paulo, 05 (AE) - No início da década de 90, o ator e diretor teatral Gilberto Gawronski apresentou ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio, um projeto sobre a arte pop. A proposta não vingou na ocasião, mas Gawronski ficou fascinado pelo tema e continuou a estudá-lo. O tempo passou e, em novembro
o CCBB inaugurou uma exposição com obras do artista norte-americano Andy Wahol, o papa da pop art, e pediu para o ator criar um espetáculo que seria apresentado durante a mostra.
Ele escreveu "Pop by Gawronski", que ficou cinco semanas em cartaz no Rio e chega ao Centro Cultural São Paulo no sábado. O espetáculo, dirigido e interpretado pelo camaleônico Gawronski, traz uma visão divertida da principal manifestação cultural da sociedade de consumo, do homem moderno e de seus valores. O personagem central da peça é o próprio Andy Wahol, que perambula por cenários que remetem ao famoso The Factory, estúdio do artista em Manhattan por onde passaram uma corte de celebridades e um bando de anônimos.
No entanto, Gawronski ressalta que não se trata de um espetáculo sobre Wahol, que morreu em 1987. "Em nenhum momento, o texto se propõe a representar a figura e o trabalho dele", explica o autor. "O espetáculo é uma viagem pela arte pop". Realmente, "Pop by Gawronski" busca reconstituir ao máximo a atmosfera do movimento artístico que destacou outros ilustres representantes como Basquiat, Roy Lichtenstein, James Rosenquist e Larry Rivers, entre outros.
O autor esclarece que escolheu Warhol como figura central por ser ele o grande mestre-de-cerimônias da arte pop e um artista multifacetado. A identificação entre ator e personagem é totalmente explícita. Ambos não crêem em limites ou amarras na arte. "Quem teve uma educação dos anos 80 conviveu com a obrigação de ter uma especialização; o Warhol mostrou que é possível fazer milhares de coisas dentro da arte", analisa Gawronski.
Em "Pop by Gawronski", o ator e diretor volta a reduzir a quase nada os limites entre o palco e o público. Essa proximidade já estava presente em "A Dama da Noite", espetáculo inspirado no conto de Caio Fernando de Abreu que se tornou sucesso no mesmo CCSP e em Nova York e virou um vídeo protagonizado pelo ator e dirigido por Mário Diamante. Vídeo que foi premiado em festivais em São Paulo, Salvador, Vitória e Cuiabá. Em maio, o filme será apresentado no Festival In and Out
em Toronto, no Canadá.
A preocupação com a platéia vem do elemento que Gawronski considera mais forte no novo espetáculo: a sensação de entrada no mundo pop. Ele quer estimular ao máximo a sensibilidade artística de cada espectador. "Brinco que o espetáculo deveria ser uma overdose na veia artística do público", diz o ator. "Todo mundo deveria desenvolver essa veia". Espelhos - No decorrer da peça, o público é convidado a refletir e circular por 12 ambientes compostos por elementos variados da arte pop. Pode ser um berço, colagens, histórias em quadrinhos e reproduções de serigrafia. No caminho, poderão ver sua imagem refletida numa instalação de espelhos. Também vão topar e tomar um drinque com alguns tipos incomuns que orbitavam no mundo de Warhol, como go-go boys, starlets, viciados, paparazzi, DJs, todos interpretados por artistas, modelos, VJs e outros convidados especiais.
Entre os seres da noite que cercam Warhol-Gawronski estão Kysi Condé, VJ da MTV, que interpreta a estrela, e Vitor Mihailoff, modelo que faz o papel do "gostosão" que todo mundo se acha no direito de comprar. "Ele aparece por uma espécie de buraco da fechadura fazendo sexo solitário", conta Gawronski. Há, nesse caso, duas leituras: a representação do famoso voyeurismo de Warhol e do individualismo da sociedade moderna, que, afinal, também pode ser pop.
A interação com o espetáculo deverá partir do espectador. "Busco uma interatividade respeitosa", afirma Gawronski. "Não obrigo ninguém a fazer nada, mas o espaço está aberto e quem tiver uma poesia e quiser recitar, tudo bem". A tentativa de dar uma chacoalhada na platéia está ligada à firme crença de Gawronski de que as pessoas são ligadas à arte desde que chegam ao mundo. "A partir do momento em que nascemos, estamos sempre em contato com arte, seja por meio de um filme, de uma música ou um de móbile que nossa mãe pendura no berço", prega o diretor.
Para Gawronski, é preciso mergulhar nesse universo de arte a aprender a aproveitá-lo. Ele usa um exemplo que se encaixa com precisão no conceito de arte pop. "Se você chega em casa, abre a despensa e acha que a caixa de sucrilhos não fica bem ao lado da caixa de leite, por que não colocar uma lata de azeite no meio?", brinca. Liberdade total - O estilo faça-o-que-bem-entender pode não agradar a todos, e Gawronski sabe disso. Ele confessa que às vezes as pessoas lhe perguntam se o que estão vendo é teatro. Mas o autor não se importa com rótulos. A liberdade de expressão artística está acima de tudo. "É legal mostrar o pop como a última arte do século passado", resigna-se. O novo trabalho de Gawronski traz também elementos adicionais que se adequam perfeitamente na obra de Warhol.
O primeiro é um filme de 16 milímetros produzido por Isabella Fernandes e Vica Nabuco, inspirado nos filmes realizados pelo artista norte-americano. O segundo é a trilha sonora do espetáculo, que inclui uma seleção de Velvet Underground, grupo patrocinado por Warhol. Mas a música não se resume a Velvet. Afinal, nenhuma porta está fechada e é bem possível que no fim do espetáculo uma explosão de sons eletrônicos invada o teatro. "Não tenho tesão em fazer uma reconstituição histórica; se tiver vontade, vou botar música tecno na trilha", admite Gawronski.
A despreocupação formal é uma marca registrada desse ator gaúcho que já encenou textos de Naum Alves de Souza, Moacyr Góes e que ganhou um Troféu Mambembe (melhor ator em Busca do Coração Secreto, de 1990). Gawronski não aceita rótulos. Ele se incomodou com alguns críticos que tacharam "A Dama da Noite" de peça gay. "Gay não é gênero", indigna-se o ator. Para ele, "Pop by Gawronski" tem muito mais a ver com o estilo gay. "O pop é gay no sentido cultural, porque é alegre, faz as pessoas se divertirem". Multiplicidade - Ator de faces múltiplas, Gawronski está participando de outros dois projetos atualmente. Ele dirige o espetáculo "Deus Somos Nós", escrito e interpretado pelo poeta e ator paraibano Tavinho Teixeira. Com estréia prevista para o terça-feira, a peça é a dramatização de 20 poesias extraídas no livro homônimo de Teixeira. A história, contada por meio da poesia, fala de amor com pitadas de humor e drama, sangue e sexo
alegria e morbidez, paixão e devaneio.
Teixeira era aluno do Centro das Artes de Laranjeiras (CAL), onde Gawronski leciona. "Ele me mostrou seus poemas e tive uma identificação imediata", lembra o diretor. Logo depois
ele e Teixeira foram à Paraíba ensaiar o espetáculo. "A peça não usa só o poeta, mas o ator; ela constrói o homem sozinho que olha no espelho e ora se vê, ora vê o mundo".
"Deus Somos Nós" busca a satisfação do homem com o convívio social e discute basicamente a solidão, os anseios, as necessidades e as dificuldades do homem moderno diante do caos urbano. O espetáculo será apresentado por Ney Matogrosso. A peça fica em cartaz até o dia 10 de fevereiro e depois será apresentada em Belo Horizonte.
Outro projeto que Gawronski está engajado é o longa-metragem "Lara", de Ana Maria Magalhães, obra inspirada na trajetória de Odete Lara. Ele interpreta Iberê, o melhor amigo da protagonista. Para o ator, a experiência com cinema tem sido estimulante. "O cinema é muito físico, é um desafio manter o prazer acordando cedo e acostumar-se a várias interrupções", analisa. Serviço - "Pop By Gawronski". Texto e direção de Gilberto Gawronski. Duração: 1 hora. Sexta e sábado, às 21h30; domingo, às 20h30. R$ 12,00. Até 13/2. Estréia sábado. "Deus Somos Nós". De Tavinho Teixeira. Direção de Gilberto Gawronski. Duração: 50 minutos. De terça a quinta, às 21h30. R$ 12,00. Até 10/2. Estréia terça-feira. Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611


