Pontos para o jornalismo literário
Agência Estado
Ancorada em minuciosos dossiês, longas entrevistas e críticas literárias, há dois anos a Cult vem se destacando como a mais importante revista literária do País
A revista Cult, mais importante publicação literária independente do País, acaba de completar dois anos de existência. É uma data que merece ser celebrada. Cult é, como quase tudo o que se faz no jornalismo literário neste país, obra de um homem só: Manuel da Costa Pinto, de 33 anos, jornalista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) e dono de uma carreira breve, mas acelerada.
Cult foi lançada em julho de 1997, graças também ao empenho empresarial de outro solitário, o editor Paulo Lemos, da Lemos Editorial, uma casa voltada para publicações da área médica que publica hoje cerca de 50 revistas patrocinadas por laboratórios. Foi toda projetada pelo próprio Costa Pinto, pelo editor de arte Maurício Dominguez e pela agência de publicidade Capacitá.
Cult tem um perfil fortemente influenciado pela universidade - mais especificamente pela USP, como quase tudo o que se produz na cultura paulista. Essa influência é visível na linha editorial e nas assinaturas, o que empresta à revista um tom circunspecto que lhe rouba, às vezes, a leveza.
As edições ancoram-se, quase sempre, em minuciosos dossiês, mas trazem também longas entrevistas, além de crítica literária, colunas fixas e notas informativas. A tiragem atual é de 20 mil exemplares e surpreende que apenas 3 mil sejam destinados a assinantes e os outros 17 mil, vendidos em bancas de todo o Brasil. A seguir, os principais trechos da entrevista com Manuel da Costa Pinto.
Qual é a fórmula do sucesso de Cult?
A idéia básica é fazer uma revista de literatura que tenha uma pauta jornalística e um tratamento ensaístico. Por ser vendida em banca, temos a preocupação de ter uma pauta quente, com assuntos do momento, lançamentos, efemérides, etc. Mas o tratamento que damos a esses assuntos é mais aprofundado, mais ensaístico. Isso fica patente em nossos dossiês. Dedicamos também um amplo espaço às entrevistas, como as de Lygia Fagundes Telles, Haroldo de Campos, Ferreira Gullar, Hilda Hilst, Ricardo Piglia e José Saramago.
Essa opção pelos longos dossiês não pode afastar muitos leitores?
A revista tem 64 páginas e os dossiês nunca ocupam mais que 21. Às vezes acho que fica exagerado, sim. Procuro balancear colocando sempre uma entrevista diferente. Já demos entrevista até com o Arnaldo Jabor, que não é escritor. No número de julho, o dossiê, com 22 páginas, é dedicado a Machado de Assis, mas como contrapeso há uma entrevista com o jornalista Pedro Bial. Estamos sempre em busca do equilíbrio. Temos, além disso, as seções fixas e as resenhas normais, que tornam a revista ainda mais variada. Há quem reclame, por exemplo, da coluna do Pasquale Cipro Neto, Na ponta da língua, achando que ele está dando aula de português para quem já conhece português - o que é uma grande bobagem, uma visão de salto alto, como se a coluna fosse uma ofensa, e não é.
A prioridade ao ensaio não restringe o universo de leitores?
Quem gosta de literatura gosta de ler sobre literatura também, quer ter uma opinião sobre ela. A cultura literária se faz com esse tipo de reflexão: não existe leitura pura de um romance. Toda leitura vem agregada a outras leituras. É impossivel ler o Machado hoje como você o lia em 1890. Hoje a leitura é mais formalista ou mais sociológica.
Não há o risco de reforçar a idéia, bastante difundida, de uma literatura para universitários?
Os resenhistas, é verdade, vêm maciçamente do meio universitário. Mesmo quando peço a escritores para escrever sobre livros, acabo descobrindo que o cara é professor não sei onde ou mestre não sei em quê. Isso não é uma escolha da revista. Não acho que seja um elemento de restrição. Basta ver quem são nossos leitores. Na capital, a USP é meio tentacular, mas no interior temos muito retorno de leitores não ligados à universidade; muitos professores de 2.º grau, por exemplo. Eu imaginava, no início, que teríamos um público de estudantes, mas uma pesquisa que fizemos mostrou que 50% desse público é composto de professores - o que não quer dizer que seja um público acadêmico.
Ainda assim, é um público de sala de aula. Não seria interessante que a revista abrisse espaço para críticos e escritores de formação humanista?
No Brasil falta, sim, o crítico de formação humanista, falta um Otto Maria Carpeaux. O saber hoje é muito especializado, o que leva a exageros e acaba influenciando a própria literatura. Veja o caso do nouveau roman, um movimento literário feito por romancistas que produziam ensaios que serviam como instrumentos de leitura de seus romances. Está desaparecendo o crítico humanista, da mesma maneira que está desaparecendo o escritor que seja o grande retratista do seu tempo.
Afastar-se do saber acadêmico seria, a seu ver, baratear a cultura?
O que não se pode é baratear a cultura, isso, sim, é enganoso. O livro sobre Spinoza que a Marilena Chauí acaba de lançar é, sim, para meia dúzia de leitores, mas é um trabalho de vida, vai ter uma permanência. O problema da crítica é o mesmo das vanguardas: é o exclusivismo e o exclusivismo é chato tanto na literatura como na crítica. Um crítico feroz da universidade como o Tolentino talvez aponte essa excludência, mas eu acho que ele faz isso de uma forma errada.
Cult destaca-se também por abrir espaço para a criação literária. Isso vai ampliar-se?
A revista pretende casar a criação literária com a reflexão sobre literatura, tornar-se um espaço de diálogo entre as duas partes. Tanto que planejamos até a criação de um prêmio literário. O que diferencia a Cult é isto: ela oferece as duas dimensões.





